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Published on Julho 17th, 2016 | by festmag

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SBSR 2016: Façam barulho!

A última e mais concorrida noite do Super Bock Super Rock recebeu os excelentes Fidlar e GNR com “Psicopátria” mas os Orelha Negra, De La Soul e o rei Kendrick Lamar mostraram que há barulho que não sai só de guitarras.

Anunciado como esgotado, o terceiro e último dia do festival no Parque das Nações registou a maior enchente dos três dias. Como nos dias anteriores o entardecer foi marcado pelas temperaturas elevadas que nem por isso fizeram descansar os primeiros festivaleiros que à sombra da pala do Pavilhão de Portugal foram dançando ao som de Kelela. A americana com nome de dança africana aqueceu ainda mais o ambiente com os ritmos de “Cut 4 Me”, editado o ano passado.

Mas foram os FIDLAR de guitarras afiadas quem detonou o Palco EDP num dos melhores concertos da 22ª edição do festival. Mostrando desde logo ao que vinham, com o nome inscrito no papel de cenário como se de uma pichagem se tratasse (FIDLAR são as iniciais para Fuck It Dog, Life’s a Risk) atiraram-se a uma versão muito própria e bem conseguida de “Sabotage” dos Beastie Boys. Entrada à Bruno Alves, portanto.

Apesar de oriundos da Califórnia fizeram notar o calor do fim de tarde e num sincero agradecimento à pequena multidão que se juntou na frente de palco e de uma assentada apresentaram temas dos seus dois discos de estúdio até ao momento (o homónimo de 2013 e “Too” de 2015). Com um conjunto de excelentes singles – “Cheap Beer”, “Drone”, “40oz. On Repeat”, só para citar alguns – têm tanto de energia furiosa como de letras acultilantes e pelo que vimo em palco e fora dele (muito se stranspirou, e muito crowdsurf se fez) não tardarão a voltar.

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Abrindo o alinhamento previsto para a Meo Arena no último dia do festival, os Orelha Negra demonstraram porque são um dos mais criativos e interessantes projetos a nascer nos últimos anos em Portugal. Perante uma plateia praticamente cheia e ocupação parcial do primeiro anel do pavilhão – vindo-se mais tarde a comprovar que estava ali para os ver e não para guardar lugar para os pesos pesados que se seguiriam – o quinteto deu um concerto irrepreensível. Refira-se mesmo que à hora em causa, foi o concerto da Meo Arena mais procurado de todo o festival.

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A banda interpretou temas dos seus dois discos mais os dois singles de avanço para o terceiro longa-duração, “A Sombra” e “Parte De Mim”, bem como alguns medleys com versões de temas de outros artistas como por exemplo Drake ou Mind Da Gap pedindo muitas vezes para se fazer barulho para Orelha Negra. A tudo o público respondeu com sentida devoção.

De realçar ainda o jogo de luzes simples mas que, aliado às bolas de espelhos dispostas em fila por trás dos elementos da banda, criava um efeito visual espetacular – ainda para mais numa sala tão grande – provando mais uma vez que às vezes as ideias mais simples são as melhores.

Enquanto isso Ana Matos aka Capicua chegou ao Palco Heineken para sublinhar a grandeza do cartaz de hip hop mas sobretudo a sua própria grandeza. Com a língua sempre afiada, a “Sereia Louca” acompanhada com M7 (e em “Maria Capaz” com mais umas quantas mulheres), demonstrou que há bom hip hop português e no feminino.

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Seguiram-se uns senhores que têm uma grande quota parte no sucesso e abrangência em termos de público que o hip hop goza atualmente, atuando antes de Kendrick Lamar, presentemente uma das maiores estrelas na constelação que os De La Soul ajudaram a criar. A questão é que chega a ser quase confrangedor assistir a um espetáculo seu em 2016, principalmente quando comparado com o que seguiu. Mas já lá vamos.

Se espremermos o concerto a que se assistiu, chegamos à conclusão de que 60% do tempo pertence à música, sobrando 40% para comunicação com o público. Mesmo sabendo-se que tal hábito é importante na cultura hip hop, foi de facto exagerado. Logo ao início a banda dá-se ao luxo de parar por duas vezes um tema para desafiar a multidão de modo a perceber se é o lado direito ou o esquerdo a fazer a maior festa.

Ter um DJ que pouco mais faz que colocar um tema a correr e fazer uns scratches aqui e ali, é manifestamente pouco quando comparado com concertos em que há uma banda envolvida. Não que ter uma banda seja sinónimo de bom concerto mas é questão para dizer que ontem foi muita parra, pouca uva. E quando a meio do concerto um dos MCs mostra, durante largos minutos, estar mais preocupado em estar de telemóvel em riste a gravar vídeos do que a agarrar no micro, tem-se a certeza que algo vai mal.

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Com o decorrer do concerto torna-se claro que um concerto dos De La Soul em 2016 tem muita gordura, dando tempo de ir ao wc e, ao ouvir o concerto ao longe, concluir-se que não se perde um tema. Coincidência talvez, mas não desaparece a noção da gordura desnecessária e de demasiado tempo despendido a comunicar com o público, no fundo queria-se menos “yos”, “put your hands in the air”, “make some noise” e “the party is over here” e mais música. O concerto termina com uma interpretação de “Dare” dos Gorillaz, tema no qual a banda participa – foi impressão ou disseram que a tinham escrito juntamente com os Gorillaz…? – tendo então recebido os maiores aplausos da noite.

Enquanto isso no Palco Heineken relembrava-se parte da história do rock português com os GNR a interpretarem Psicopátria, disco com trinta anos. Mostrando estarem mais frescos que a muita cerveja vendida durante a noite, o coletivo portuense teve o bom gosto de não se deixar desanimar com a fraca audiência (Rui Reininho usou inclusivamente do seu humor derrisório para brincar com a situação). Além dos clássicos do disco em apreço, houve ainda espaço para Video Maria (1990), Las vegas (1994) e “Cadeira Elétrica” (2014).

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E por fim chegou Kendrick Lamar e é caso para dizer que o pequeno se agigantou. O rapper norte-americano, um dos maiores da atualidade tanto em termos de qualidade dos registos discográficos como em termos de vendas (e tantas vezes estes parâmetros andam de costas voltadas) deu um concerto absolutamente fantástico. Atuou para a maior enchente que a Meo Arena registou em todo o festival, mesmo assim longe de esgotada, e logo ao início provou mais uma vez que se trata de um rapper músico que conhece bem as raízes do hip hop e de outros géneros estilisticamente associados. Durante todo o concerto, um jogo de luzes incrivelmente simples e atrás, no ecrã, a seguinte citação de George Clinton, gigante dos Parliament e Funkadelic: «Look both ways before you cross my mind». Conclusão, todo o foco na música, na mensagem.

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Rapaz inteligente e informado, Lamar serve-se da sua música para passar uma mensagem política e social, muito bem ancorada na banda que o acompanha, para lá de competente, que por vezes comanda com um olhar ou um gesto, fazendo lembrar o “Minister of The New New Super Heavy Heavy Funk”, Mr. James Brown. A comparação não será descabida: num momento em que há a possibilidade do próximo Presidente dos E.U.A. ser alguém que por várias vezes já teve comentários pouco simpáticos para com a população negra, Kendrick Lamar é bem capaz de ser o porta-voz da sua geração.

O alinhamento privilegiou o último registo “To Pimp A Butterfly” – “Untitled Remastered” não é mais que uma coleção de lados B –, não ignorando os restantes discos da sua carreira, com destaque também para “good kid, m.A.A.d city”. Temas como “Backseat Freestyle”, “Bitch, Don’t Kill My Vibe”, “Alright”, “Swimming Pools (Drank)”, “These Walls” e “A.D.H.D.” foram alguns dos temas que despertaram maior reação por parte da assistência que cantou cada verso, cada rima e, sem ser necessário pedir, fez muito barulho. Por fim, refira-se que numa das muitas demonstrações de afeto, a plateia começou a cantar um recente cântico bem português, tendo Kendrick Lamar ficado a saber que «…Foi o Éder que os fodeu». E fica assim para memória futura este momento único do futebol nacional e este concerto inesquecível do Rei Kendrick.

Texto de Alexandra Silva e Pedro Guimarães

Fotografias de Rute Gonçalves

 

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