Cinema em Notas | “El Club”: hipocrisia numa realidade crua e dorida
Num pequeno povoado à beira do Pacífico, uma casa sóbria de cor e reta de linhas explica-nos, de forma sucinta e eficaz, o que significa a palavra HIPOCRISIA. Num pequeno universo “familiar” desenvolve-se uma trama intensa, onde tudo é falso e forjado.
Cinema em Notas pretende mostrar cinema através de um gosto individual e uma afinidade emocional pela alegria de partilhar; com uma classificação baseada em notas e pensamentos pessoais.
Faz tempo que sigo este realizador chileno: Pablo Larraín . “Tony Manero”, “Post Mortem” e “No” são três trabalhos imperdíveis que nos levam ao âmago do ser humano. Neste cinema a realidade é o presente – e como presente é o agora – somos transfigurados nas personagens e pensamos da mesma forma. Ficamos viciados por elas e com elas.
Larraín tem a louvável capacidade de nos arrastar para dentro da teia, de nos entrelaçar no interior do drama, de nos entalar psicologicamente em todo o enredo de qualquer história.
Num mosteiro improvisado, coloca-se de lado a origem do problema, e de forma leviana pensa-se que basta isolar para resolver, que basta matar a agrura da vida e tudo é solucionado. E assim tudo fica pacificado, mas não! A realidade será sempre mais bruta e mais cruel. A condescendente irmã Mónica (Antonia Zegers) controla toda a vida doméstica do tal ‘retiro espiritual’, nele habitam os padres Ortega (Alejandro Goic), Ramirez (Alejandro Sieveking), Vidal (Alfredo Castro) e o Padre Silva (Jaime Vadell). E todos vivem com algum segredo, com algum pecado.
Calma, mas a forma que a Igreja Católica encontrou de separar o pastor do rebanho sempre foi o isolamento, um longo e eterno retiro; como se tal fosse o suficiente para expiar a culpa ou retificar os seus defeitos, vulgos crimes.

Em “El Club” a dissimulação da Igreja Católica atinge os cumes mais altos, eleva-se a níveis quase estratosféricos. Tudo é escondido, tudo é reprimido, tudo é atirado para trás das costas de uma forma imponderada. O convencionado estratagema de ‘enterrar a cabeça na areia’ não funciona mais e os dramas e os traumas provocados têm ser castigados.
Continuar a desculpabilizar homens, só porque estão ungidos por um qualquer sacramento místico, não lhes dá qualquer indulto. Apenas reforça aquilo que é maior no universo clerical: um mundo assumidamente hipócrita.
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Classificação: 4/5
El Club (2015) – 1h38min – Pablo Larraín
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