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Música

Published on Abril 22nd, 2017 | by festmag

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Mário Laginha, o virtuoso indomável no palco da Culturgest

Mário Laginha apresentou-se na Culturgest ao piano, acompanhado por Bernardo Moreira e Alexandre Frazão e rodeado de público que pode testemunhar o seu virtuosismo.

Por uma razão ou por outra, temos andado mais ou menos arredados das lides jazzísticas, lides essas fundadoras do interesse matricial que nutrimos pela música e, em suma, pela arte. Na noite de 19 de abril, regressamos a este mundo com o Mário Laginha Trio na Culturgest. Encontrámos música nova e o virtuosismo criativo irrepreensível do intérprete principal. Sempre nos atraiu – no jazz e não só – a possibilidade de, a partir da ordem, se criar o caos e, em parte, esta foi uma das premissas deste concerto.

Apresentar música nova abre portas para aquilo que mais nos atrai no jazz e que foi reforçado pelo artista principal no lançamento desta noite: o improviso e a liberdade. A liberdade tomava aqui a forma de um piano, uma bateria e um contrabaixo. Mesmo a liberdade, precisa de instrumentos para poder manifestar-se e estes são os instrumentos clássicos, a ordem que poderia dar origem ao desconhecido. Última chamada para o espetáculo. Toma lá um lugar central para assistir ao concerto. Obrigado Culturgest. “Lembramos que não é permitido gravar o espetáculo. Desliguem por favor os telemóveis”. Vamos lá a isto. Cenário simples, minimalista, luzes monocromáticas.

Mário Laginha mostrou logo ao que vinha, não houve tempo sequer para respirar: o lirismo a escorrer-lhe pelos dedos das mãos até ao piano. Dono de uma eloquência fluída que se manifesta através da música, Laginha é aquele jogador que pega na bola atrás do seu meio campo e vai por ali fora, passa por entre os adversários como quem serpenteia pelo relvado e, perante a baliza do oponente, finta ainda o guarda redes antes de encostar para golo. Um virtuoso.

Alexandre Frazão na bateria, sempre em understatement numa contenção tensa e perigosamente imprevisível e Bernardo Moreira emotivamente abraçado ao contrabaixo pareciam dar a tela sólida onde aquele que dá nome ao trio escolhia as cores com que pintava o quadro que tinha pela frente.

Mário Laginha dá nomes de plantas às músicas novas, mas fica a ideia que tanto podiam ser nomes de plantas como de outra coisa qualquer. A energia que corre nas suas veias não é a da nomenclatura, mas a de um transe epilético que parece alimentar-se da matéria da qual é feita o piano a que está simbioticamente ligado.

Sentimos falta apenas de uma certa estranheza talvez dada pelos silêncios, pelos solos que não pedem licença para ganhar vida própria ou, em última instância, se quisermos ser mais trágicos, sentimos falta do erro. Um erro que seria aliás um desenlace natural perante a opção de “arriscar sem sentir medo”. Mesmo assim, abrimos a possibilidade de o erro estar tão imerso na narrativa apresentada que nos vêm à cabeça as palavras de um outro grande intérprete: “Do not fear mistakes. There are none“. E quando os erros não existem, não há como pedir-lhes que sejam visíveis.

Texto de Francisco Garcês

Fotografias de Márcia Lessa

Os nossos agradecimentos à Culturgest

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