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Música

Published on Maio 3rd, 2017 | by Pedro Guimarães

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Reportagem | Mar de gente no Coliseu dos Recreios para o “Placebo day”

Os Placebo comemoraram os 20 anos de carreira no Coliseu dos Recreios que já lhes era familiar de outras andanças. Os fãs responderam em peso à chamada e saíram da Rua Portas de Santo Antão de barriga cheia, depois dum concerto com um alinhamento abrangente embora com maior pendor nos primeiros registos.

A memória já algo difusa recorda um grande concerto dos Placebo no Coliseu dos Recreios em inícios da década passada. Um ficheiro excel básico e toda a internet à nossa disposição, esclarecem que foi a 25 de março de 2001, a mítica sala lisboeta estava à pinha e o alinhamento foi incrível. Tratava-se pois da digressão relativa ao terceiro disco, “Black Market Music”, logo, havia muito pouco por onde errar.

Os Placebo são um belo exemplo duma banda que consegue escrever boas canções com adrenalina qb, melodias que ficam no ouvido e a inconfundível voz de Brian Molko, andrógina como ele é (já foi bem mais), doce e, aqui e ali, misteriosa até. Fizeram-no com especial recorte nos dois primeiros discos, com algum desnorte no terceiro e com menos relevância nos que se seguiram. Contudo, para aqueles que apanharam “aqueles dois discos” na altura, eles sempre tiveram algo de especial, de viciante, de irresistível. Não que tivessem sido minimamente pioneiros no que quer que seja – nem todos têm de o ser, certo? –, mas aquelas músicas revelavam-se na verdade irresistíveis, autênticos rebuçados pop com a – por vezes – roupagem mais “dura”. E isso ficou bem claro ontem no concerto que a banda deu no Coliseu dos Recreios, celebrando os 20 anos do tal primeiro disco.

É óbvio que todos os discos dos Placebo têm malhas, e sim, claro que os concertos que se seguiram em Portugal também tiveram momentos fortes. Contudo, o que sucedeu ontem num Coliseu a lembrar 2001 de tão cheio que estava, foi o reencontrar com os nossos amigos de há vinte anos, com aquelas músicas que permanecem cheias de vigor, imediatismo e energia, encontrando-se ainda no entanto, envoltas numa doçura e inocência que não desaparece.  A nossa irreverência e inconformismo, natural dos vinte e poucos anos, reencontrou-se ontem com o adulto com responsabilidades que somos hoje em dia. Podemos atualmente ter filhos, ter mudado n vezes de curso e/ou de emprego, de país e – com maior ou menos frequência – de companheiro amoroso, mas nada disso interessou ontem.

Ontem era acerca de reviver tempos passados com músicas que não passam de tempo, com bastantes temas mais recentes pelo meio, bem inseridos no alinhamento. Num deles – “Too Many Friends” de 2013 – Brian Molko canta «I got too many friends, Too many people that I’ll never meet, And I’ll never be there for», e sendo certo que ele já tinha em tempos conhecido a maior parte deles, é certo que fez ontem alguns novos amigos.

A previsão dos temas mais antigos virem a arrancar maiores ovações revelava-se mais provável que o Bas Dost marcar no próximo jogo (vai acontecer), e assim foi. O concerto começou com “Every You Every Me” a rodar apenas no ecrã, antes de Brian Molko e Stefan Olsdal (e demais músicos) subirem ao palco. Seguiu-se uma explosiva interpretação da contagiosa “Pure Morning”, “Without You I’m Nothing” com uma silenciosa – isto é, sem o dispensável discurso – homenagem a David Bowie com quem os Placebo regravaram o tema em 1999 e a quem muito devem. Seguiu-se “36 Degrees”, com arranjos diferentes, ficando com uma cadência mais arrastada.

Brian dizia que era um “Placebo day” e que queriam comemorar com os presentes, depois duma sequência menos enérgica com “Devil in the Details” e “Exit Wounds”, entre outros, seguiram-se “For What It’s Worth”, “Special K”, “The Bitter End” provocando um dos acompanhamentos mais energéticos de toda a noite por parte da plateia. “Teenage Angst”, também mais lenta que em disco, e “Nancy Boy”, com o baixo de Olsdal a ostentar as cores do movimento LGBT completaram uma sequência de arromba com uma potência sonora a condizer e que deixou o Coliseu dos Recreios ao rubro.

Quase a fechar e com a corrosiva “Infra-Red” como pano de fundo, aparece por detrás dos músicos uma imagem dum maço de tabaco (com óbvias semelhanças gráficas à Marlboro) e o rosto do Donald J. Trump. Por baixo a mensagem «seriously harms you and others around you». Na mouche, portanto. Ele há coisas que há 20 anos eram menos más.

Para o fim estava guardada a bonita versão de “Running Up That Hill” de Kate Bush encerrando assim o 17.º concerto dos Placebo em Portugal. Foi uma festa, uma celebração, um daqueles concertos que nos faz ir trabalhar no dia seguinte com um sorriso bem estúpido na cara. Ainda bem.

Os nossos agradecimentos à Everything Is New.

Fotografia: Lino Silva.

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