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Música

Published on Maio 24th, 2017 | by Pedro Guimarães

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Reportagem | Três Tristes Tigres: Uma viagem espiritual nada comum

Os singulares Três Tristes Tigres voltaram a atuar em Lisboa, subindo ao palco do Lux na passada sexta feira para um concerto precioso. A pop desalinhada e desafiante da banda proporcionou uma bela viagem no tempo.

Os Três Tristes Tigres são, no que respeita à pop feita neste pedaço da Europa agora tão em voga – ele é campeonatos europeus de futebol, ele é concursos da eurovisão, ele é filhas adotivas da Madonna a matricularem-se em colégios –, donos de um dos percursos mais singulares e fascinantes de que há memória. Uma capacidade singular em criar canções, algumas delas de estrutura bastante simples (não confundamos simples com básica), outras com uma complexidade lírica e riqueza sonora singular mas, importante, nunca querendo que a forma fosse mais importante que o conteúdo. Ali não havia enchimento para criar volume, o corpo sonoro dos Três Tristes Tigres foi sim gradualmente evoluindo duma pop açucarada e imaginativa – mas já com muitos sinais de querer ser algo mais – para composições ainda mais desafiantes e aventureiras.

O último ar de graça que tinham dado foi através do tema “Coisas Azuis” que incluíram na coletânea “Visita de Estudo” em 2001, tendo antes editado três belos discos, alguns deles marcando mesmo presença em algumas das habituais listas, quando mais tarde se tentou perceber o que de melhor tinha feito a música portuguesa nos anos noventa. Muito tempo passou, entretanto Alexandre Soares e Ana Deus dedicaram-se aos Osso Vaidoso até que, fruto dum convite de Miguel Guedes para atuarem no “Porto Best Of” que se realizou no Teatro Municipal Rivoli, a reunião aconteceu. Além desse concerto agendaram uma presença no Lux integrada nas noites Black Balloon e foi assim que voltámos a ver os Três Tristes Tigres na capital.

Em cima do palco do Lux uma visivelmente contente e – como havia de admitir – nervosa Ana Deus, partilhava o que lhe ia na alma enquanto que Alexandre Soares, mais submerso na interpretação dos temas mediante o dedilhar desenfreado da guitarra ou doce acariciamento das cordas, ia soltando alguns sorrisos cúmplices. Em palco a formação ficaria completa com a presença de Quico Serrano (teclados), João Pedro Coimbra (percussão) e Rui Martelo (baixo).

“Saudades!”, confidenciou logo ao início Ana Deus, perante uma plateia bem composta onde a média etária andaria pela casa dos trinta e muitos anos, afinal passaram 19 anos desde o último disco de estúdio. Ana Deus dá as boas vindas a um «passado que já foi futuro» e com a breca, era isso mesmo. Vão lá ouvir aqueles discos e digam se aquela massa sonora não representava mesmo uma porta imaginária para o futuro, se não eram uma daquelas bandas que viam mais à frente, estando uns degraus acima dos seus pares, donos e senhores duma visão estética muito própria. Óbvio que há temas que, mesmo no universo dos Três Tristes Tigres, contém uma sonoridade um pouco “anos noventa” em demasia, como “Zap Canal”, mas ao vivo os cinco músicos conseguiram criar algo homogêneo, não sendo nunca apenas a transcrição sonora das rodelas editadas.

Com um alinhamento que privilegiou o doce e imaginativo “Guia Espiritual” e o desafiante e desalinhado “Comum”, ouviram-se temas como “Espécie”, “Noites Brancas”, “Xmas”, “Ruído Rosa”, Missão Impossível”, “Olho na Rua”, ficando “O Mundo A Meus Pés” e “Anormal” para o final perante uma plateia rendida. Os Três Tristes Tigres reavivaram boas memórias e comprovaram de forma definitiva, a singularidade duma banda que foi trilhando o seu caminho, um caminho algures numa outra dimensão, uma sonoridade demasiado invulgar e estranha para ser assimilado pelas massas, sendo ao invés disso, acarinhada e vista como algo de muito precioso.

Uma coisa é certo: aparte de um ou outro tema, estes discos envelheceram mesmo muito bem, continuando em 2017 a possuir uma aura de singularidade e uma personalidade estética vincada. Haveria agora lugar para os Três Tristes Tigres? Seguir-se-á uma nova etapa na vida da banda ou foram estes concertos (ótimos) veículos para testemunharmos uma última vez a sua genialidade? Estamos cá para ver e ouvir!

Fotografias: João Pinheiro

Os nossos agradecimentos ao Lux Frágil.

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