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Música

Published on Maio 7th, 2017 | by Alexandra Silva

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Reportagem | Wovenhand no RCA Club: Experiência extra-sensorial

“Star Treatment” foi o mote para a apresentação de David Eugene Edwards e a sua banda no palco do RCA, na sexta-feira à noite. Os Wovenhand vieram mostrar porque é que tem de haver vida para lá disto.

É ao som de Slipknot que aguardamos a entrada em palco de um dos mais místicos e enigmáticos compositores deste milénio. Dono de uma presença que tem tanto de mestre espiritual como de condutor de um ritual, David Eugene Edwards, o mentor dos Wovenhand, garante sempre concertos carregados de misticismo.

Essa ambiência ligada a terra mas também ligada a algo extratérreo tem também na decoração do palco o seu reflexo. Tecidos étnicos decoram colunas, instrumentos, microfones e a viagem espiritualista arranca mesmo antes dos músicos pisarem o palco.

Claro que a figura ímpar de Edwards compõe de forma perfeita o retrato. O guru veste-se da cabeça aos pés com pequenos pormenores de requinte: o clássico chapéu com penas, o lenço que lhe envolve a cabeça por debaixo do mesmo, as tatuagens tribais à mostra, fios e anéis que nos transportam para a cultura hindu, botas de pele de serpente que hão de serpentear entre acordes. Nada é deixado ao acaso na indumentária do chefe de tribo que pinta os olhos – que há de revirar um cento de vezes – e que faz questão de trazer um chaveiro preso nas calças.

A banda completava-se com o baixista Neil Keener e o guitarrista Chuck French, ambos integrantes dos Planes Mistaken for Stars habituados portanto a boas doses de intensidade sónica,  e com o baterista cuja identidade não conseguimos descortinar. Atualmente a folk negra já se encontra no retrovisor dos Wovenhand, não sendo por mero acaso que ele se faz acompanhar com malta este calibre. Agora somos servidos por doses de um rock musculado, corpulento e sinuoso mas sem gordura extra. Várias vezes, por entre composições enleadas que serpenteiam à nossa volta, quase que juramos estar noutra dimensão, como se David Eugene Edwards estivesse presente em cada centímetro quadrado do RCA, planando em cima de nós, com a sua voz profunda e enfeitiçante, e o corpo em cima do palco não fosse mais que uma manifestação apenas carnal, revelando-se absolutamente incapaz de conter em si um espírito tão rebelde e rico como Mr. David Eugene Edwards.

Perante um RCA composto, desfilaram temas como “Hiss”, “Crystal Palace”, “Hireed Hand”, “Swaying Reed” todas do mais recente álbum, com o anterior “Refractory Obdurate” de 2014 a ocupar o segundo lugar de destaque (com os temas “Corsicana Clip”, “The Refractory”, “Salome” e “Obdurate Obscura”), havendo anda uma tênue viagem ao passado com “Sinking Hands” (The Threshingfloor” de 2010). Assistir a um concerto dos Wovenhand é uma experiência única e imperdível, tanto em termos musicais como visuais, incomparável no restante paranoma musical.

Antes atuou Felipe Felizardo, artista visual e guitarrista com créditos firmados no paronama musical português mais enviesado e contra corrente, adepto da exploração da dicotomia entre o silêncio e ausência dele. Feita de mutações e metamorfoses sonoras, o concerto cronometrado de Filipe Felizardo – o último tema foi adaptado para uma versão radio friendly de 4 minutos – abriu caminho para o ritual que se seguiria.

Fotografias: Vera Marmelo

Os nossos agradecimentos à Amplificasom e ao RCA Club.

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