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Música

Published on Junho 21st, 2017 | by Filipe Pedro

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4.º Rock Nordeste: Luxo na paz do Parque Corgo

Vila Real chamou-nos desta forma: “o melhor da música portuguesa está a nordeste”. Um festival gratuito, com 27.500 pessoas – números da organização -, a poucos dias do solstício de verão (21 de junho; o Rock Nordeste decorreu nos dias 16 e 17 de junho), no Parque Corgo e no Teatro de Vila Real, com temperaturas perto dos 40 graus (que se revelariam fatídicas nas imediações de Pedrógão Grande) e dez artistas portugueses, todos com provas dadas e com álbuns editados nos últimos meses (ou mesmo por editar no caso dos Beatbombers ou The Legendary Tigerman) ou uma importante efeméride – os 25 anos do essencial “Mutantes S.21”, dos Mão Morta.

O que encontrámos ultrapassou a expectativa: uma simpatia ímpar, sorrisos constantes na face dos organizadores e do público, uma qualidade acústica de fazer corar a esmagadora maioria dos festivais com grandes patrocinadores, uma encantadora Vila Real com preços de Lisboa no tempo da outra senhora, e uma oferta razoável de wc, de bares e de restauração, sempre com uma sinalética graficamente apelativa. Não diremos que não vimos telemóveis ou selfies, mas a audiência conhecia, claramente, as letras e as obras dos músicos – alguns absolutamente siderados por ser a primeira vez que atuavam por detrás do Marão, caso de Slow J – e o motivo pelo qual se deslocaram terá sido a música, algo cada vez mais raro nos dias que correm, para mais num cartaz que abarcava tantos estilos musicais.

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Na sexta-feira, 16 de junho, o auditório junto ao Teatro Municipal de Vila Real foi pequeno para a quantidade de pessoas que ambicionavam ver e ouvir “Dead Combo e As Cordas da Má Fama”, na versão palco. A acústica do recinto e a qualidade do sistema de som mereceram o nosso rasgado elogio – apenas as comunicações de Tó Trips eram praticamente inaudíveis, o que ainda assim não perturbou a dinâmica do duo em palco – decorado ao melhor estilo cabaré retro, com candeeiros, mesas e amigos dos Dead Combo e do conjunto de cordas (violoncelo, viola de arco e violino) que os acompanhou em boa parte de um concerto envolvente e intimista. Com agradecimentos a Vila Real e à organização do Rock Nordeste, os lisboetas despediram-se ao som de “Lisboa Mulata”, diversas vénias e ovação final por parte de um público extasiado com o que vira e ouvira. E o mesmo se repetiria até ao final do festival, ao som dos irrepreensíveis Beatbombers, mas vamos por partes.

Sentimos que os músicos dão mais neste festival, onde recebem carta branca da organização para mudanças no alinhamento e para encores, algo cada vez mais raro nos alinhamentos “apertados” dos pequenos, médios e grandes festivais. Tudo o que pudermos dizer sobre o espetáculo atual de Capicua será pouco. Nascida Ana Matos Fernandes, a rapper do Porto com um incomensurável talento, enche o palco (Parque Corgo), puxa e conquista pelo público, improvisa e debita pertinentes mensagens e palavras de ordem. Com o apoio de Marta Bateira (voz), D-One (samples e scratch), Virtus (programação e samples), Ricardo Coelho (bateria), Luís Montenegro (baixo, guitarra e sintetizador) e Sérgio Alves (teclado), Capicua propõe versões atualizadas para os temas “Maria Capaz”, “Vayorken”, “Jugular”, “Medusa”, “Sereia Louca”, “Casa no Campo” ou “Medo do Medo” – muitos deles cantados em uníssono e fortemente aplaudidos -, terminando com a fortíssima “Barulho”, na versão produzida por Razat e Stereossauro. Uma palavra para o incansável e genial Vítor Ferreira projeta as suas ilustrações vulgo interpretações visuais, alteradas música a música, em tempo real, num enorme video wall, atrás dos músicos.

De regresso ao Rock Nordeste com uma renovada capacidade de criar verdadeiras explosões com o seu eletrorock espacial, os Sensible Soccers são uma das mais notáveis bandas portuguesas da atualidade. Apesar de um cabo ‘malandro’ lhes dar algumas dores de cabeça nos dois primeiros temas, o quarteto de Filipe Azevedo, Hugo Alfredo Gomes, Manuel Justo e Emanuel Botelho soube gerir muito bem o catálogo que, apesar de curto, inclui o fabuloso segundo álbum “Villa Soledade” (de 2016, com pérolas como “Shampom”, “Nunca Mais Me Esquece” ou “Bolissol”) e temas anteriores como “AFG” ou “Sofrendo por Você”.

Contagiados com os ritmos inebriantes dos Sensible Soccers, os habitantes de um anfiteatro ‘natural’ com reminiscências de Paredes de Coura e do Milhões de Festa dançaram alegremente até ao desfecho do concerto. Boa parte aguentou-se mesmo madrugada fora com os sons endiabrados do dj Marfox, que assumiu os comandos perto das 03:00. Autor de “Chapa Quente” e de “Lucky Punch”, e ‘remisturador’ de artistas com o gabarito de Elza Soares e Batida, o impulsionador da Príncipe Discos proporcionou um arrojado caldeirão de kuduro, favela funk, eletro e sons tribais. Um festão à antiga, muitas vezes testemunhado nas famosas “Noite Príncipe”, no MusicBox, em Lisboa.

Sábado, 17 de junho, 18:15. Com um ligeiro atraso e perante um público que raras vezes se levantou – tal era o calor -, Márcia e o marido Filipe Monteiro mostraram o melhor do repertório da cantautora em modo acústico (foi uma pena não ter autorizado o registo áudio ou vídeo de um concerto verdadeiramente singular e especial). “Se querem ver um concerto com mais músicos, peçam à vossa autarquia para pagar mais”, brincou a artista, referindo que o facto de acariciar o único músico em palco se devia ao facto de ser o seu marido. “Sou muito certinha, posso, contudo, roçar-me a um tal de Samuel Úria que, como toda a gente sabe, é o meu amante oficial”. Risada geral. “Linha de Ferro”, “Tempo de Aventura”, “A Insatisfação” ou “Agora” (excelente tema com o qual concorreu ao Festival da Canção, aparentemente do desagrado de Fátima Campos Ferreira, a mesma apresentadora do “Prós e Contras”, na RTP, que inquiria veementemente Miguel Araújo pelo facto de este cantar em inglês…) que ganharam uma interpretação despida de eletricidade. “Sabem que a minha amiga – e vencedora da Eurovisão – Luísa Sobral analisa a popularidade dos seus concertos em função do ‘ohhhh’ do público antes dos últimos temas, por isso esforcem-se lá mais um pouco”, ironizou Márcia.

“Menina”, o último tema, já com os músicos do concerto que se seguiria em palco – e com bastante mais público que, corajosamente, enfrentava o calor sem pontinha de brisa -, viu chegar o “amante oficial” para o aguardado roça-roça. Comum aos dois concertos: Filipe Monteiro, o “marido”, a atuar, de forma irrepreensível, com Samuel Úria, como se o fizesse desde sempre (mas não, era a “estreia”). O álbum “Carga de Ombro” (2016) foi o ponto de partida – e de chegada -, mas com pontos de passagem pelos anteriores “O Grande Medo do Pequeno Mundo” (2013) e “Nem Lhe Tocava” (2009). Samuel brinca com Márcia ao dizer logo ao terceiro tema: “bom, estamos a chegar ao fim, quero ouvir esses ‘ohhhh’ bem altos” – e quando a chama para o dueto “Eu Seguro”: “se ela demora muito, chamamos outra cantora qualquer” – Filipe volta a brilhar, desta vez na ‘slide guitar’.

A generalidade das músicas ganhou um assinalável ímpeto rock (como “Repressão”), mas o público permaneceu sereno e contemplativo. No final do concerto, os êxitos de elevada rotação “É Preciso Que Eu Diminua” e “Teimoso” causaram a ebulição da audiência, que saltou da relva para levantar poeira, literalmente, para espanto dos músicos que, de forma inteligente, esticaram as canções. O relógio não se queixaria, uma vez que o próximo concerto estava agendado para o palco Teatro, às 22:30.

Depois de jantarmos uma fresquíssima ‘Super Pizza’ (passe a publicidade, abriu recentemente e fica na Rua Boa Vista 13, em Vila Real), regressámos ao Parque Corgo para escutar um dos melhores álbuns dos anos 90, “Mutantes S.21”, na celebração dos 25 anos do lançamento. Terá sido o primeiro concerto de uma digressão que inclui festivais como Curtas Vila do Conde, Bons Sons ou Paredes de Coura. A expectativa era muita. Se na véspera o espetáculo dos Dead Combo tinha registado uma enchente, o mesmo recinto ‘rebentava’ agora pelas costuras.

Com base na banda desenhada lançada na edição especial do álbum, em 1992, os Mão Morta convidaram 15 ilustradores para elaborarem trabalhos alusivos a cada um dos temas (e mais uns quantos com sonoridades ‘urbanas’), com edição visual ao vivo (estilo cinema live) por João Martinho Moura, e acrescentando tonalidades e nuances a um espectáculo tendencialmente escuro. “Marraquexe”, “Até Cair” (do álbum “Mão Morta”, 1988), “Paris”, “Istambul”, “Velocidade Escaldante” (do disco “Vénus em Chamas”, 1994), o hino “Budapeste” (com a citação Stones “It’s Only Rock ’N Roll (But I Like It) pelo meio), “Lisboa” a fechar e “Bófia” (1991), a terminar o encore, compuseram o alinhamento. Antes houve tempo para as mais recentes “Tiago Capitão”’ e “Fazer de Morto” (ambas de “Pesadelo em Peluche”, 2010).

Tocadas de seguida, “Berlim”, “Amsterdão” e “Barcelona” foram algumas das músicas mais celebradas num alinhamento que incluiu o instrumental “Shambalah” no início do concerto (no disco é o derradeiro) dos bracarenses. Elogioso em relação à organização do Rock Nordeste, Adolfo Luxúria Canibal não deixou por créditos alheios as habituais danças extasiantes e a postura de rocker ‘maldito’, com a sua rara capacidade interpretativa. Miguel Pedro, Rafael, Sapo, Vasco e Joana, todos contribuíram para que “Mutantes S.21” (e os temas extra) ganhasse uma segunda vida, por vezes superior à já de si superlativa qualidade do original.

“Estou muito mais feliz e completo desde que toco com estes dois senhores”, afirma Paulo Furtado, referindo-se a João Cabrita (saxofone) e a Paulo Segadães (bateria). The Legendary Tigerman, com quase 30 anos de carreira (começou a tocar em 1989) muito diversificados que incluem os Tédio Boys, os Wraygunn, diversas bandas sonoras, filmes e seis discos a solo, de “Naked Blues” (2002) a “True” (2014), já não toca sozinho em palco (guitarra, harmónica, bateria e kazoo). “Green Onions”, “Dance Craze” ou “Twenty First Century Rock ‘N Roll” são alguns dos temas do último álbum em que o (agora) trio dá literalmente o litro, prolongando as músicas, com pausas inesperadas mas certeiras, uma comunicação audaz (“façam amor, não podem deixar de o fazer, é essencial”), ‘navegando’ e cantando em cima do público, e deixando para o fim a belíssima “True Love Will Find You In The End”, de Daniel Johnston, mas aqui na versão mais próxima da de Cibelle, presente no álbum “Femina” (2009). Dificilmente poderíamos esperar melhor.

O que se seguiu foi um verdadeiro colosso. Uma empatia genuína e única da primeira à última canção de “The Art of Slowing Down”, o álbum de estreia Slow J, tocado integralmente e cantado em uníssono por acérrimos fãs – mesmo os temas menos conhecidos, perante o espanto do músico que assina João Batista Coelho. Slow J, acompanhado por Francis Dale (Diogo Ribeiro) e Fred Ferreira (filho de Kalú, dos Xutos & Pontapés, e membro de Orelha Negra, Banda do Mar, ex-Buraka Som Sistema, ex-5-30, ex-Miúda…), lançou o disco a 17 de março último, no Estúdio da Time Out, Mercado da Ribeira, em Lisboa. Para nós que testemunhámos o momento, talvez não tenha sido tão surpreendente observar como o ‘descendente’ de Valete, Sam The Kid e Carlão, quer em termos de letras – inspiradíssimas – quer ao nível da criação musical – hip hop, semba, fado, rock – tem sido justamente acarinhado pelo público.

Logo a abrir, “Arte”: “Eu queria ser como os grandes cantores, dos palcos gigantes, aplausos, vénias. E aplausos (…)”. Pára tudo, Slow J já é um dos grandes. E terá certamente palcos cada vez maiores e horários tendencialmente mais nobres. “Casa”, “Sonhei Para Dentro”, “Biza”, “Serenata”, “Último Empregado”, “Pagar As Contas”, “Vida Boa”, “Sado”, “P’ra Ti” e “Mun’Dança”, todas com a sensação de ‘momento especiais’, quase em ‘loop’, tal era a vontade de ter não um encore, mas um novo concerto, idêntico ao que foi vivido, de novo. Na impossibilidade de tal acontecer, Slow J desceu do palco para abraçar os fãs. Um momento emotivo e emocionante, de comunhão, inesquecível.

Poucos minutos depois de sair do palco, Slow J era novamente citado pelos Beatbombers. Os bicampeões do mundo de scratch e turntablism editam por estes dias o disco de estreia homónimo (não deixem de o escutar), onde se inclui “Puristas”, vocalizado pelo artista que lhes precedeu no palco do Rock Nordeste. DJ Ride e Stereossauro apresentam um espectáculo bem oleado num caldeirão fulminante de excertos de hip hop, breakbeats, eletro, rock, grime e dubstep. Kentaro, Fakser, Fuse, Razat e Maze são alguns dos outros convidados que aparecem no álbum e que pudemos escutar em primeira mão, ainda que em exuberantes misturas com dezenas de outras coisas. No fundo do palco, um ecrã gigante ligado a duas GoPro permite acompanhar de perto tudo o que a dupla executa em tempo real. O ‘balanço’ possível e diversificado q.b. para terminar um festival que deixa saudades pela qualidade do cardápio e pelo salutar ambiente que se viveu. Vemo-nos em 2018.

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