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Música

Published on Junho 12th, 2017 | by festmag

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NOS Primavera Sound | Este festival é uma naçom

Três dias de muita música, muita flor, muito amor. À sexta edição o Primavera Sound realizado no Porto carimbou a entrada definitiva na rota dos festivais europeus a não perder. As cerca de 90 mil almas que passaram pelo Parque da Cidade nos três dias chegavam já para criar uma colónia.

Dia 8 de junho
São cinco da tarde e a Primavera está instalada no Porto. As previsões meteorológicas são favoráveis, as coroas de flores às dezenas, as pessoas estendem-se nas toalhas agora amarelas, bebem as primeiras de muitas cervejas, enrolam as primeiras de muitas ganzas. É uma comunidade de amantes de música e de festa que se junta para celebrar a vida.

O arranque dá-se em português, mesmo que muitos dos presentes sejam claramente de outros pontos do globo. A “Carga de Ombro” é limpinha, e Úria agiganta-se ao por do sol. No mesmo palco, o “secundário” a vida festeja-se com Rodrigo Leão e Scott Matthew. Mas já antes os Cigarettes After Sex haviam estreado o Palco NOS com doçura suficiente para criar novos diabéticos. Com o disco homónimo acabado de sair, oferecem um concerto ameno e sintonizado com o espírito de arranque de festival.

  

A festa a sério seria iniciada com Miguel, todo ele charme, todo ele ginga, todo ele alma. A soul, as jams, o ritmo caliente, a vibe e uma performance notável, geraram a primeira grande ovação do festival e puseram este como um dos momentos mais marcantes da edição. Mudando de palco – e para algo completamente diferente – os Arab Strap faziam-nos regressar ao passado invocando os tempos em que a música independente era reproduzida em cassetes de má qualidade. De regresso aos concertos após dez anos parados, ofereceram um concerto competente mas que para muitos não terá sido suficiente para esquecer que vieram ao Porto substituir os Grandaddy.

Miguel

Um dos maiores nomes do primeiro dia do festival, os Run The Jewels,  voltavam a um local onde tinham sido felizes em 2015. EL-P e Killer Mike iniciaram o concerto com o “We Are The Champions” dos Queen a brotar das colunas mas apesar do reconhecido valor dos registos discográficos, a prestação da banda não fez jus à introdução. Um bom concerto mas que soou um pouco a piloto automático polvilhado com demasiados elogios ao público, ao festival, às árvores e sabe-se lá mais o quê.

A seguir Steven Ellison aka Flying Lotus encerrou o Palco Super Bock com um concerto que teve o último “You’re Dead!” como pano de fundo. As suas bonitas, sonhadoras e musicalmente desafiantes composições, contendo ingredientes sonoros de todos os quadrantes imaginários, tiveram um espaço condizente, com a luz proveniente das espetaculares projeções a ser refletida no bonito Parque da Cidade. Ainda assim fica a vontade de o ver num espaço com menos fatores de distração e menos pessoas à conversa por perto.  

Para o fim estavam guardados os Justice, outrora uma das duplas mais em voga no campeonato da música eletrónica. Os tempos são outros, o fulgor criativo e o contexto do mercado musical também mas a verdade é que Gaspard Augé e Xavier de Rosnay se safaram muito bem. Com um brilhante – embora discreto – jogo de luzes e um som incrivelmente potente e límpido, souberam adaptar-se dando novas roupagens a hinos de outrora como “Genesis”, “D.A.N.C.E.” e “Stress”, intercalando-os com temas do mais recente “Woman”.

Justice

Dia 9 de junho

Baterias recarregadas e a tarde começava embalada pelo som meteórico dos First Breath After Coma, banda que não tarda merecerá um horário e um palco condigno com a qualidade que tem demonstrado e no amadurecimento musical que estamos a viver com eles. No mesmo palco, outra banda pela qual nutrimos um carinho apurado, embevecia o público. Os Whitney enchiam de amor a plateia e partilhavam os temas do aclamado Light Upon the Lake de forma encantadora e competente. Ainda mostraram um novo tema composto em Lisboa onde atuaram no Vodafone Mexefest em novembro passado.

Os amiguinhos dos Tame Impala e também australianos Pond, já editaram um disco desde que nos visitaram pela última vez, tendo “The Weather” sido por isso o prato forte da atuação dos rapazes, com o rock a servir de fio condutor para os Royal Trux que, ressuscitados da inatividade, deram um concerto fracote no Palco . (ponto). Agarrem na equação que teve como resultado o concerto deles, juntem gana e atitude e subtraiam desleixo e o efeito de substâncias menos legais, e talvez tivéssemos um bom concerto.

A Angel Olsen não faltaram nem gana, nem atitude. Empunhando a guitarra e soltando a voz pelo Parque com os marcantes temas de “My Women” editado o ano passado, Olsen soa a anjo caído com laivos de demonização e toda a atuação soa a equilíbrio entre esses dois mundos. “Shut Up Kiss Me”, “Give It Up” e “Not Gonna Kill You”, servidas de supetão, ficarão na memória pelo menos até ao ano que vem.

Angel Olsen

De volta ao Palco . temos outro concerto com “C” grande. Não que em palco haja muito para ver, afinal de contas os Sleaford Mods são um gajo que carrega no play, e depois bebe cerveja até voltar a carregar na dita tecla, e outro agarrado ao microfone. Contudo, o que parece pouco, é afinal muito. A sonoridade é eminentemente urbana e britânica, com temáticas – imaginamos nós – carregados de testemunhos pessoais e assente num post-punk de vistas largas. E depois há aquela deliciosa pronúncia das East Midlands cortesia de Jason Williamson que, incansavelmente, contagia o público com a sua energia. É sempre um prazer. Enquanto isso os também ingleses Teenage Fanclub encetavam nova viagem aos anos 90 com a pop sentimental e aprimorada que poucos souberam revisitar.

Os Swans poderão ser novidade apenas para um punhado de pessoas mas a verdade é que deram um concerto irrepreensível e um dos melhores do festival. Interpretando apenas cinco temas, Michael Gira e companhia aliciaram os membros do público, um a um, a entrar no seu mundo ora claustrofóbico e caótico, ora luminoso. Mas não se pense numa luminosidade pacífica e cândida, antes aquela que nos cega com toda a sua força e potência.  Como que a luz imensa que surge após uma das muitas explosões que acontecem por cima das nossas cabeças, no espaço longínquo. Seres de outros planetas, ouçam os Swans e, mesmo testemunhando toda a insanidade que vos espanta e deixa incrédulos, dêem um desconto à Humanidade.

Talvez Bon Iver estivesse a pensar “quem me dera estar no outro palco a ouvir Swans” uma vez que o próprio notou que dali se ouvia a banda de Gira. Estava no palco NOS, devidamente munido da sua maquinaria que no mais recente “22, a million” lhe alterou a voz e acrescentou vigor aos temas. Mas a alma de Justin Vernon é atormentada pelo amor e é nos temas mais obscuros como a sua alma (e o próprio recinto preenchido por 30 mil pessoas) que nos arranca o coração. “Perth”, “Towers”, “Holocene” e já à guitarra acústica “Skinny Love” amplamente entoada fizeram as delícias de todos, mesmo daqueles que a maior parte do concerto estiveram a conversar sobre tudo e algo mais, quebrando o intimismo que os temas de Bon Iver merecem.

Hamilton Leithauser, que também passou pelo Porto mas com a sua ex-banda The Walkmen, provocou no Palco Pitchfork vários arrepios de espinha. É que aquele vozeirão é seta direitinha ao coração e, como se não bastasse, fala-nos de amor, de sonhos, de pais que não são convidados para o casamento das filhas. É o disco “I Had a Dream That You Were Mine”, editado com Rostam dos Vampire Weekend, que é pano de fundo e fio condutor; é Hamilton, soberbamente acompanhado em palco, o guia para esta viagem que faríamos 1000 vezes.

A fechar a noite Nicolas Jaar não deu um concerto para o fã que tem os seus discos na prateleira e aprecia a subtileza que as suas criações encerram. É óbvio que a atuação teve momentos de inspiração mas acabamos a pensar que preferimos um Jaar em formato “tenda” ao invés do formato “plateia imensa”. Sentindo o peso da responsabilidade nos ombros, optou por arranjos e temas mais pesados e propícios ao abanar de anca, que por ambientes que – embora possam ser o combustível para uns passinhos de dança – acabam por ser mais elegantes e menos corriqueiros. Sejamos práticos, parecia que muita daquela malta iria dançar independentemente do que lhe pusessem à frente. Nicolas Jaar, e a sua música, merecem bem mais que isso.

Dia 10 de junho

Os californianos Wand deram o perfeito concerto de final de tarde, com o seu rock psicadélico, com piscadelas stoner, a ser a banda sonora perfeita para acompanhar o sol que brindava os presentes na verdejante plateia do Palco . Recebiam assim o testemunho que os Evols tinham passado no palco NOS onde evocaram Allen Ginsberg e mostraram ao muito público estrangeiro que não só somos hospitaleiros como fazemos música do  caraças.

Mas o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas foi de magia negra no Parque da Cidade. Elza Soares mostrou porque tem sido apelidada de diva em todo o mundo e esgravatou na consciência coletiva de todos, sambou na cara de todos e mostrou que não há idade “pra fuder”. Um vulcão a escorrer palavras de ordem, um portento vocal, a verdadeira rainha.

Foi também no Palco Super Bock que Sampha proporcionou um dos melhores concertos que presenciámos, com a quente voz do outrora colaborador de SBTRKT a ser o ingrediente perfeito para as suas composições que vão buscar inspiração à soul, grime, dubstep e algo mais. Com grande entrosamento com os restantes músicos, Sampha teve uma atuação enérgica que pôs muita malta a dançar.

Sampha

O poder negro manteve-se, pois, no Palco . graças à inenarrável hora passada com MC Ride, Zach Hill e Andy Morin. Boa sorte a quem tiver os discos do trio americano os tiver arrumados por estilo musical. Isto não é música, é agitação; não é um concerto, é uma manifestação; eles não são três, somos nós todos em comunhão a mostrar como nos festivais ainda há muito mais do que flores, cerveja e drogas. Que sova!

Quem dispensasse a aula para queimar calorias dos Death Grips e não fizesse questão de ver os Metronomy – sempre com bons temas no cardápio mas à procura da inspiração e relevância artística perdida algures pelo caminho – encontrava o refúgio perfeito nas bonitas composições de Weyes Blood. Com o nome Natalie Mering gravado no documento de identificação, Weyes Blood irá fazer as primeiras partes dos concertos de Father John Misty, digressão que tem paragem marcada por Lisboa. As pessoas que não aparecendo, fizeram com que na véspera de completar 29 aninhos, Natalie apenas tivesse uma tenda a meio gás, terão assim nova oportunidade de tomar contato com as bonitas canções retiradas de “Front Row Seat To Earth” editado no ano passado.

Enquanto os Japandroids encerravam o Palco Super Bock, o Palco . iria presenciar uma autêntica celebração rock providenciada pelos históricos The Make-Up. Com o incomparável Ian Svenonius ao leme, o barco era não só de amor mas também de alertas à nossa consciência social, política e ambiental. Donos de uma discografia cuja importância e relevância artística é inversamente proporcional à quantidade de discos lançados, o concerto dos Make-Up foi como um vulcão rock em constante erupção, com Ian Svenonius em cima da grade (e depois amparado por generosas e disponíveis mãos do público) logo nos primeiros minutos. O concerto foi como um ritual onde corpos e mentes se uniram para celebrar o rock, as ancas, a união entre as pessoas e a consciência de que o mundo é o que fazemos dele. Histórico.

Uma multidão de gente esperava pelo (algo improvável) cabeça de cartaz Aphex Twin. Imprevisível e corrosivo, Richard David James tem construído o seu caminho, raramente fazendo o que esperam dele, tirando gozo de alterar e defraudar as expetativas que criam à volta da sua personagem. Do que vimos foi “um concerto” em alta rotação, impróprio para cardíacos, pessoas com hipersensibilidade ou propensas a ataques epiléticos. Porque a sua música é acima de tudo um ataque à jugular, aos nossos neurónios, à nossa sensibilidade.

Para o final estava guardado aquele que foi provavelmente o melhor concerto do festival. Os californianos The Black Angels mostraram porque razão são uma das melhores bandas de rock (psicadélico) das últimas décadas, com vários lançamentos discográficos dignos de registo e uma qualidade em cima do palco deveras assinalável. Os percalços técnicos que fizeram com que a banda atuasse sem projeções foram algo de suprema insignificância, tal a bujarda sonora que lançam para cima dos espetadores, tudo sem esforço, tudo com uma clareza sonora ímpar.

Cientes de que os seus melhores discos são provavelmente o primeiro “Passover” e o último “Death Song”, foram esses os pratos fortes dum alinhamento em que se destacaram temas como “You On The Run”, “Currency”, “Bad Vibrations”, “Black Grease”, “The Sniper at the Gates of Heaven” e “Half Believing”. Terminou assim com chave de ouro a edição de 2017 do NOS Primavera Sound com um dos melhores concertos rock a que este festival alguma vez assistiu.

Os nossos agradecimentos ao NOS Primavera Sound e à Pic-Nic Produções

Texto de Alexandra Silva e Pedro Guimarães
Fotografias: ©Hugo Lima

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