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Música

Published on Junho 4th, 2017 | by Pedro Guimarães

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Reportagem | GN’R em Algés: Appetite for celebration

Os Guns N’ Roses regressaram a Portugal 25 anos depois da última passagem a sério por cá, isto claro, porque GN’R sem Slash não é a mesma coisa. Os temas de “Apetite for Destruction” e “Use Your Illusion” provaram não terem concorrência, num Passeio Marítimo de Algés a rebentar pelas costuras.

Viviam-se os últimos anos da musicalmente (e não só) extravagante década de oitenta e o hair metal estando ainda em voga, dava já claros sinais de cansaço, começando a perder relevância comercial, isto porque artística nunca teve muita, sejamos francos. Eis que aparece uma banda californiana que, exibindo ainda alguns dos vícios desse estilo musical, começou a usar cada vez menos laca, dando às músicas mais músculo, uma maior perigosidade estética e emocional digamos. E as canções. Os GN’R escreveram algumas canções que metem qualquer uma dessas bandas a um canto.

Dois discos incontornáveis haviam de incluir para sempre os Guns N’ Roses na história do hard-rock, com “Appetite for Destruction” e, ambos os volumes de, “Use Your Illusion” a serem exemplos intocáveis de compêndios de temas viciantes e cantaroláveis. Eram músicas vertiginosas que apelavam a descapotáveis com as miúdas mais giras que encontrássemos, mas também aquelas baladas açucaradas, devidos às quais o maior isqueiro que dispuséssemos iria ficar inevitavelmente sem gás. Certamente que muitos encontros casuais viraram românticos à custa desta banda da California.

A expetativa entre os fãs era muita, sendo prova disso a lotação esgotada dum recinto como o Passeio Marítimo de Algés. Afinal de contas, apesar do baterista original Steven Adler não se encontrar em cima do palco, na realidade raramente se pensa nos bateristas quando falamos de ausências marcantes. Há exceções claro, afinal os Nirvana nunca seriam a mesma coisa sem o Dave Ghroll por exemplo. Adiante. À exceção dessa ausência, eles regressavam finalmente a Portugal, depois do inesquecível (não pelas melhores razões) do concerto de Alvalade em 1992. Quase 25 anos depois era pois altura de rever Axl e Slash, uma das duplas mais icónicas da história do rock. A designação desta digressão “Not In This Lifetime Tour” acaba por referenciar isso mesmo. Algo que esteve muito perto de nunca mais vir a acontecer (Slash e Duff McKagan regressaram à banda para o Coachella de 2016), podendo mesmo vir a ser a última oportunidade que os fãs por todo o mundo, terão de os ver juntos em cima dum palco. Isto porque com esta malta nunca se sabe.

À semelhança da herança discográfica da banda, o concerto que os Guns N’ Roses deram na sexta-feira perante uma multidão composta por putos, recém adultos, quarentões e malta bem mais velha – são portanto uma daquelas bandas etariamente transversais – teve altos e baixos. O alinhamento começou com “It’s So Easy” e “Mr. Brownstone” ambos de “Appetite for Destruction” e “Chinese Democracy”, todos temas a sofrer ainda de alguns problemas sonoros. Foi realmente com uma eletrizante interpretação de “Welcome To The Jungle” que o concerto levantou voo. Axl Rose parecia mais magro do que já o tínhamos visto e por isso mais mexido e enérgico e juntamente com Slash, com a sua pose caraterística, eram os principais alvos das atenções. Afinal, a banda sempre girou muito à volta destes dois.

Houve várias versões desde uma  de “New Rose” dos The Damned que sinceramente podia ter corrido melhor, a “Wish You Were Here” dos Pink Floyd numa interessante versão instrumental, à habitual “Knockin’ On Heaven’s Door” de Bob Dylan tornada mais famosa pelos californianos, havendo também lugar para “Black Hole Sun” em memória do malogrado Chris Cornell. Enquanto isso, males da sociedade atual, inúmeros telemóveis condicionavam aqueles que estavam lá para ver em vez de gravarem o momento num qualquer ficheiro, que depois será visto uma ou duas vezes na vida, sendo depois eternamente esquecido no meio de chapas de churrascos, saltos para a piscina e selfies ao por do sol com a então cara metade com quem na verdade já nem temos contato. Havia também quem fizesse karaoke para a câmara enquanto os seus ídolos estavam de carne e osso atrás deles. É a atual sobrevalorização da partilha de momentos, como se o mostrar do “olha eu a cantar enquanto os GN’R tocavam” fosse mais importante de que vivenciar autenticamente os momentos com toda a atenção e concentração.

Falando de música, destaque para uma excelente interpretação de “You Could Be Mine”, tanto que ficámos à espera que Arnold Schwarzenegger (então estrela da saga “Terminator”, tendo a música entrado em “Terminator 2: Judgment Day”, e futuro Governador da California) aparecesse de rompante em Algés na sua Harley, galgando asfalto como ninguém. Uma interpretação intocável de “Civil War” tornar-se-ia num dos pontos altos do concerto, “Sweet Child O’Mine” trouxe consigo todo o seu encanto e aquele riff imediatamente reconhecível, “November Rain” acabou por perder força no seu crescendo não deixando por isso de ser um tema incrível, com o concerto a encerrar com “Paradise City” e a banda junta no fim, à beira do palco a agradecer a calorosa receção.

Pelo meio alguns temas de “Chinese Democracy” que na prática confirmaram serem apenas notas de rodapé no meio de músicas maiores de uns GN’R melhores. Mesmo com os naturais altos e baixos foi muito bom, e provavelmente irrepetível, vê-los em cima do palco.

Uma última nota para o caos que se criou à saída, com as dezenas de milhares de pessoas – basicamente todas aquelas que não optaram por perder uns minutos de música, e ainda foram umas largas centenas as que abdicaram dos últimos acordes para antecipar a confusão – a terem de estar em longas filas para conseguirem sair do recinto ou chegar a um local onde não se andasse como na noite de dia 12 em Alfama.

Antes atuaram Tyler Bryant & The Shahedown com um rock competente mas sem deslumbrar e Mark Lanegan, senhor de recomendável discografia mas com um concerto muito morno, vários furos abaixo do que lá lhe vimos fazer.

Os nossos agradecimentos à Everything Is New.

Fotografias: Retiradas das páginas de facebook da promotora e da banda.

 

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