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Published on Julho 31st, 2017 | by festmag

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Entrevista Courtney Taylor-Taylor, The Dandy Warhols: “Eu queria matar o grunge, já que mais ninguém o fazia”

Courtney Taylor-Taylor assume a liderança dos The Dandy Warhols há vinte anos, banda que volta a Portugal como cabeça de cartaz do segundo dia do Festival de Vilar de Mouros 2017 que acontece a 24, 25 e 26 de agosto.

Começo com uma confissão, nunca tinha ouvido os The Dandy Warhols até “Bohemian Like You” se ter transformado rapidamente num sucesso mundial num anúncio da Vodafone. O que acontece com a mediatização de um tema específico de uma banda é proporcionar a indiferença perante o resto do catálogo, a estigmatização da comercialização, ou o despertar do interesse pelo projeto e a pesquisa por nova música.

Felizmente aconteceu-me o despertar do interesse e, se comecei pelo single orelhudo, espantou-me um “Not If You Were The Only Junky On Earth” do álbum “The Dandy Warhols Come Down”, de 1997. A pop era mais profunda, havia um rock de base misturado com psicadelismo, um espaço etéreo reservado ao shoegaze, um garage rock que vinha realmente de uma garagem e até os teclados de Zia McCabe se aproximavam do synthpop dos anos 80. O grupo de Portland, Oregon, Estados Unidos, merecia certamente uma audição mais atenta.

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O fenómeno Courtney Taylor-Taylor também foi um combustível certeiro, um frontman carismático é meio caminho andando para o mistério se instalar. As letras decadentes apontam para caminhos diferentes dos percorridos pelos Media que os acusavam de se venderem a grandes editoras pelo sucesso da carreira, o que nos leva ao ponto um do desinteresse pelo resto do catálogo.

Sempre foi mais fácil avaliar a banda pelo “DIG!“, documentário de 2004, famoso pela rivalidade entre os The Dandy Warhols e os The Brian Jonestown Massacre, e a fricção entre os dois líderes Courtney Taylor-Taylor e Anton Newcombe. O filme documental em versão reality show, que se focava no atrito, despertou tudo o que queríamos ver em bandas no século XX, a reminiscência dos anos 60/70, as discussões, as drogas, a escolha entre a arte e o sucesso e um juízo de valor sobre quem era mais purista. No entanto, uma década antes, Taylor-Taylor já tinha cantando «I’ve said everything I could do, Think everything I could be, Heard every word without listening. I’m a dick». Da mesma forma que aponta o dedo à burguesia de hipsters que se instalou na sociedade e desmascara a sua hipocrisia, não se distancia dela e por vezes confunde-se com o que critica. É um eu sei que tu sabes que eu sei que a banda não se tornou totalmente relevante mas está longe de ser irrelevante.

O futuro garantiu aos The Dandy Warhols um lugar de culto nas bandas dos anos 2000, de onde saíram grupos como os Strokes ou The White Stripes. Tempos dourados do rock alternativo mas marcados por conjecturas sociais e políticas deploráveis que marcaram a banda de Portland. Apesar de tudo, algum do seu melhor trabalho foi produzido nessa década,. “You Were The Last High” é exemplo disso, uma colaboração com Evan Dando dos Lemonheads e um dos momentos soberanos dos The Dandy Warhols, “It was Chicago for a moment, It was Paris and London for a few days, But I am alone but adored”.

Este tema imortal e já denunciava o descontentamento com a vida na estrada como confidencia Courtney Taylor-Taylor, numa entrevista por email, surpreendentemente fácil de conseguir mas ingrata pela impossibilidade de pegar nas respostas, explorá-las e, até, encaminhar para outros caminhos. Terei a possibilidade de aprofundar esta conversa em Vilar de Mouros, onde sobem ao palco já no próximo dia 25 de agosto para apresentar o mais recente álbum “Distortland”, uma mistura de Portland com distorção, tanto na sonoridade como na sociedade.

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Continua a existir conflito em “Distortland”. Denuncia e pop em confronto com temas bem conseguidos e temas menos conseguidos, estão lá os The Dandy Warhols de sempre, apesar do álbum terminar com um «I’m too old for this shit».

Vera Rodrigues (VR) – Fala-me um pouco sobre o novo álbum. Soa hiper moderno, foi um objetivo inicial ou um processo natural?
Courtney Taylor-Taylor (CTT) – Estava a tentar captar as sensações da primeira “Geração Xtacy” do fim dos anos 80 ao início dos anos 90. Começa com um som dos Chemical Brothers do seu primeiro álbum e depois torna-se completamente shoegazer. O próximo é Dr Dre com Powerman 5000. Penso que o que quer que estejas a tentar fazer, é só um ponto de partida. O que acaba por acontecer é ganhar vida própria. Mas gosto que te soe hiper moderno, obrigada.

VR – Como é que tem sido tocá-lo ao vivo?
CTT – Tem sido óptimo. Tocamos cerca de metade do álbum ao vivo mas como temos tantos álbuns e somos uma banda preguiçosa acabamos por tocar músicas de mais um ou dois, só.

VR – O nome “Distortland” dava para renomear a Terra. No entanto qual é o significado por trás desta escolha?
CTT – O principal significado é a destruição de Portland, no Oregon. Eu vivo aqui e já não é fixe. É só mais um condomínio gigante cheio de frequentadores de shoppings que estão constantemente a ameaçar meter químicos na nossa água, acabar com as aulas de arte nas escolas, destruir a arquitetura antiga, etc. Por outro lado também significa a distorção que estava a colocar em tudo durante as gravações.

VR – Tens algumas preferências de gravação? Analógico, digital? Em estúdio, em casa? E acreditas no boom do vinil ou é só mais uma efémera moda consumista?
CTT – Agradam-me todos os métodos de gravação. Adoro fazer música fixe e não quero saber que meios ou que instrumentos estão disponíveis, uso-os todos. O crescimento do vinil é engraçado mas, também, bastante pequeno. Nalgumas semanas, uma venda de 100 unidades, pode ir para o topo de uma tabela de vendas. Eu, certamente, desejava que fosse muito maior. 

VR – Vocês (The Dandy Warhols) já estão juntos há vinte anos, e criam juntos. É uma relação. Têm de negociar quando apresentam ideias uns aos outros ou já descobriram como é que tudo pode funcionar bem?
CTT – Oh, é sempre uma negociação! O stress é constante e há alguém que sai sempre magoado, há alguém que quer sempre mais do que aquilo que merece, e todas essas merdas. Nunca acaba porque, acho eu, faz parte da natureza humana que assim seja.

VR – Portland não é muito longe de Seattle, achas que se a decadência do grunge tivesse acontecido um bocadinho mais tarde tinha influenciado a vossa banda?
CTT – Oh, afetou-nos bastante! Durou uns 20 anos, foda-se! Se não houvesse tantas bandas de merda talvez nos tivesse afetado de forma positiva mas já nos anos 90 era uma treta de som comercial que já tinha perdido toda a autenticidade. Quando nós começámos já estava na altura daquilo morrer. Eu queria matar o grunge, já que mais ninguém o fazia!

VR – Qual foi a melhor parte dos anos 2000 para vocês? Podemos dizer que foram os vossos anos 60?
Foram dominados pelo 11 de Setembro e por George W. Bush, por isso, não, não acho que tenham sido os nossos anos 60. Talvez 1999 e 2000 tenham sido bons anos para nós mas as viagens internacionais começaram demasiado rápido a ser uma merda e o tamanho do nosso negócio descontrolou-se e foi bastante deprimente para mim, pessoalmente. Não interessa se és muito rico, continua a ser revoltante ser trapaceado ou aproveitarem-se de ti, e isso domina as minhas memórias da época.

VR – O vosso nome tem uma referência óbvia a Andy Warhol e ao estilo de vida ‘dandy’. O que é que dirias ao Andy Warhol e ao Oscar Wilde se pudessem jantar os três?
CTT – Gostava de poder gravar e deixá-los falar. Mas mesmo que fosse possível e eles estivessem vivos, era improvável que acontecesse já que tenho tendência a beber muito vinho ao jantar e quando isso acontece tenho tendência a não não calar a boca.

VR – No ano passado conheci o Anton Newcombe (The Brian Jonestown Massacre) quando eles tocaram pela primeira vez em Portugal. Ele diz que tem uma boa relação contigo e que não gostou do documentário “DIG!” porque distorceu em grande parte a verdade. Concordas?
CTT – O “DIG!” não era um documentário, foram só emboscadas como nos reality shows. Ela [a realizadora Ondi Timoner] não usou nada das imagens das nossas vidas mundanas, ela só encontrou interesse quando havia atrito. Ela é uma péssima pessoa, daí não ser surpreendente.

VR – Já tocaste em Portugal antes, tens algumas memórias?
CTT – Quando abrimos para os Stones [The Rolling Stones, no Porto, 2006] em Portugal, recebemos uma ovação! Tenho a sensação de ter sido o melhor momento da minha vida.

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O Festival de Vilar de Mouros acontece entre 24 e 26 de agosto e os bilhetes custam 35 euros (um dia) e 75 euros (os três dias).

Entrevista Vera Rodrigues

Foto Alain Bib

 

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