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Música

Published on Julho 27th, 2017 | by António José Antunes

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Reportagem | WoodRock 2017: Noites de Uivo

Após o warp up de quinta-feira à noite, o WoodRock versão 2017, arrancou cheio de energia. Numa noite onde o fresco do Atlântico se fez sentir com alguma intensidade, a primeira noite de festival deu lugar ao universo mais conceptual do WoodRock. É assim que o Stoner Rock, o Doom mais arrastado e até mesmo a corrente Hardcore mais libertária, foi subindo ao palco.

A jogar quase em casa os Duvida 413, trouxeram até às areias de Quiaios um electro doom negro que aqui e ali piscava o olho ao industrial quase, quase dançável. Sem medo de levar qualquer tipo de etiqueta, os OddHums vestem a pele de doom progressivo. A banda espanhola, oriunda de Jaén, não nega as suas influências e atira-se ao doom de uma forma bastante eclética, não se limita a ficar presa dentro das regras e liberta-se em todas as direções. A banda que chega de Lisboa, Os Lâmina, entram pela noite dentro, montados no seu psychadelic stoner, sem trazerem nada de novo, são competentes e não desiludem. Vindos da Suíça para alguns concertos por Portugal, os The Black Willows traçam o seu percurso pelo mais complexo stoner doom, com uma enorme competência, delineiam ruas e estradas por onde muitos caminham, mas nem todos os fazem com tanta mestria. A terminar a noite subiram ao palco do parque de estacionamento do parque de campismo de Quiaios, os Correia e os Mr. Miyagi. A banda dos irmãos Correia anda neste mundo da música já algum tempo e isso não só é notório como lhes atribuiu um certo ar de confiança. Os manos Correia que têm no seu curriculum a presença em bandas com Sam Alone, Men Eater ou More Than A Thousand, não negam as suas origens e debitam doom cristalino. A terminar a noite a banda de Viana do Castelo, Mr. Miyagi encheu o pequeno recinto com o seu trash punk skate rock. A banda que lançou o seu ultimo trabalho “There’s No Destiny… Enjoy The Ride” pela Lovers & Lollypops, não para por que motivo seja, o seu objetivo é levar pó e colocar todo o mundo em histeria completa.

Se o primeiro dia tinha sido um dia sem qualquer surpresa, naquilo que é a linhagem nobre do Festival Woodrock, a segunda e principal noite deixava no ar alguma curiosidade e isso devido ao que aparentava ser uma maior e mais larga versatilidade dos nomes apresentados.

Coube a Mr. Mojo as honras do segundo e ultimo dia de festival. A banda de Braga carrega aos ombros longos e imaculados riffs de stoner rock e faz isso com uma enorme simplicidade e mestria. Com uma procedência menos acentuada do stoner, mas ainda assim bem delineado, o grunge alternativo dos He Name Was Fire clarifica e torna mais límpido todo o som que pairava até ao momento no ar. A banda que não nega influências de Kyuss, QOTSA ou mesmo de Red Fang, é suficiente idónea para partir num trilho próprio, são seguros de si e suficientemente capazes de criarem a sua própria trajetória.

Quem já não precisa nada disto, seja pela categoria e seja pelo nível alcançado, são os Mão Morta. A banda de Braga que era cabeça de cartaz da edição de 2017 do WoodRock, trouxe a grande enchente ao recinto, deixando o espaço super bem composto e garantido que é por aqui que organização deve caminhar. A banda de Adolfo Luxuria Canibal, que se prepara para festejar a edição dos 25 anos de “Mutantes s.21“, fez um concerto sem mácula, tema após tema foi-nos presenteando com o que de mais significativo fizeram nos últimos anos. Começando concerto de forma sublime com “Aum” os Mão Morta meteram logo tudo em sentido, metendo em sentido os menos conhecedores desta banda mítica. Daí para a frente e já com o público na mão, Adolfo e seus rapazes não mais pararam: “Escravos do Desejo”, “Paris”, “Pássaros a Esvoaçar”, “E Se Depois”, “Oublá”, “Bófia”, “Em Directo (Para a Televisão)”, “Barcelona” e “Lisboa”. Isto tudo para acabar já em encore, com o magistral “Horas de Matar”. Pouco mais há dizer sobre a qualidade dos Mão Morta, aproveito só para fazer uma curta chamada de atenção, os concertos de comemoração dos 25 anos sobre a edição de “Mutantes s.21” e tomando em conta os 3 temas tocados desse disco, têm tudo para se tornarem concertos de uma intensidade fabulosa.

Depois tudo isto, era difícil vir e fazer melhor, mas a banda de Londres que esteve presente no Hellfest 2017, Vodun não se sentiu pressionada e fez um enorme concerto. Com aspeto tribal, os Vodun apresentaram a sua enorme excentridade musical, num cosmos musical de largo espetro, tanto podem parece metal doom, como para logo de seguida estarem algures nos 60 dentro do mais dos comuns do hard & heavy. Toda esta largura de horizontes, não se reflete apenas no resultado musical final, expande-se a toda a banda.

 

A voz Oya que se encontra no universo soul, trip-hop, casa na perfeição com a guitarra perfeitamente louca de Ghede, aliás a competência técnica deste guitarrista é o suporte de toda a estrutura musical dos Vodun. Por fim a forma cénica como Ogoun, toca bateria é sublime, lembra uma Meg White ainda mais raivosa. Os Vodun foram assim dando asas à sua música, “Loa’s Kingdom”, “Mawu”, “Bloodstones” e muitos outros temas foram sendo lançados a um público, que meio a espanto e meio deliciado lá foi aplaudindo entusiasticamente a banda londrina. No final de noite e já em modo despedida, chegaram de Santiago de Compostela, as espanholas Bala e lá foram pela noite dentro debitando com toda a fúria seu alternativo punk rock.

O WoodRock tem uma paisagem sonora muito bem demarcada e isso joga muito a seu favor. Com um enorme espaço de crescimento tem todas as características para se torna, não mais um festival de verão, mas sim um festival onde a diferença é sem dúvida a sua principal marca.

Uma palavra de agradecimento a toda organização, por mais uma edição do WoodRock, a persistência tem de ser louvada e gritada ao vento: “A Nossa Praia é o Rock”.

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