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Música

Published on Julho 4th, 2017 | by Pedro Guimarães

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Sílvia Pérez Cruz: “No hay tanto pan para tanto chorizo”

Sílvia Pérez Cruz apresentou “Vestida de Nit” no grande auditório do CCB, na passada quinta-feira.

A escolha da iluminação, minimalista, contrastava com a intensidade que se sentia no ar. Sílvia Pérez Cruz foi recebida entre aplausos e recados, por um público que, desde o primeiro minuto, deixou bem claro que pretendia embarcar numa viagem sem limites pelas diferentes latitudes que influenciam a cantora espanhola.

Sílvia Pérez Cruz não escondeu que estar em Portugal é muito importante. Logo no final do primeiro tema explicou que o seu último disco, que deu nome a este concerto, teria sido gravado em dois dias. «Não consegues gravar um CD em dois dias com pessoas banais, só com pessoas destas, boas pessoas, pessoas com bom coração», partilhou antes de apresentar os músicos que compõem o quinteto de cordas que a acompanha.

Estávamos preparados para uma experiência plena. Rica em sonoridades e influências geográficas, rica em idiomas, sabores e texturas. E assim foi. Sílvia transportou-nos, com a primeira nota, para o seu espaço. O espaço onde revela a sua identidade, que não é, diríamos nós, geográfica ou musicalmente determinável. A sua voz, mais vibrada, sussurrada, límpida ou lançada, é sempre honesta. A palavra cantada, uma janela para o seu coração.    

Depressa percebemos que o concerto ganhava, a cada palavra libertada, uma dimensão política. No alinhamento surgiu a música “Corrandes d’exili”. Enquanto o arco do violoncelo rasgava as cordas, num solo comovente, Sílvia Pérez Cruz narrava a história daqueles que, no rescaldo da guerra civil espanhola, cruzaram os Pirenéus rumo ao exílio. Sílvia demonstra preocupação com os que abandonam as suas casas de modo forçado. E surge, aos nossos olhos, como alguém que dá voz aos mais frágeis, remetendo-nos, de imediato, para os mais recentes acontecimentos no médio oriente e no mediterrâneo.

Explica-nos, introduzindo mais um tema, que em Espanha, durante a última crise económica, as pessoas gritavam nas ruas, em manifestações “No hay tanto pan para tanto chorizo”, denunciando que não há tanto dinheiro para tantos ladrões. A mensagem do tema “No hay tanto pan” prendeu-nos, arrancou aplausos e despertou um sentimento de revolta em relação à conjuntura social actual. Depois de esgotados os aplausos, como que sintetizando aquele momento, ecoou pela sala, vinda da audiência, a frase “Eles comem tudo e não deixam nada”.

Sílvia, que já anunciava o final do concerto, não deu por terminada a sua viagem sem antes chamar ao palco dois dos mais promissores nomes da música contemporânea portuguesa: Júlio Resende e Salvador Sobral. Entre um fado de Amália e um clássico da música cubana, da cantora Omara Portuondo, ficámos completamente rendidos à cumplicidade dos três músicos, unidos num abraço fraterno, juntos numa aliança musical que extravasa o território peninsular.

E no final, só nos queda a ideia de que vivemos uma experiência única. De que acompanhámos, na sua viagem, a voz daquela que, em breve, será reconhecida como uma das melhores intérpretes da era contemporânea. Porque, parafraseando Júlio Resende, isto não foi música, isto foi Sílvia.

Texto de Liliana Cruz
Fotografias de Andreia Canudo Cruz

Os nossos agradecimentos à Sons em Trânsito

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