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Música

Published on Agosto 10th, 2017 | by Pedro Guimarães

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Reportagem | VOA Fest ’17

O VOA Fest ’17 decorreu debaixo dum calor abrasador mas nem assim os fãs arredaram pé da Quinta do Marialva. A edição deste ano cresceu para três dias e apresentou um novo Palco, curado pela revista Loud!, tendo tido vários pontos altos, entre eles, os concertos de Carcass, The Dillinger Escape Plan e Obituary.

O VOA Fest decorreu novamente na Quinta do Marialva em Corroios e o calor abrasador voltou a marcar presença, com as poucas sombras disponíveis a serem muito procuradas pelos festivaleiros que pouco a pouco iam compondo o recinto. Este ano o acesso à encosta em frente ao Palco Principal foi aberto o que possibilitou que muitos pudessem descansar e recarregar baterias para os concertos que se seguiam, além de proporcionar uma bela vista do recinto.

A honra de abrir o festival e o Palco Principal coube aos Process of Guilt que, com a sonoridade potente e intrincada com a qual já nos habituaram, apresentaram já alguns temas de “Black Earth”, o novo longa duração com saída prevista para setembro, numa edição conjunta entre a Bleak Recordings e a Division Records. Debaixo de um calor abrasador e com um concerto claramente merecedor de mais público, os Process of Guilt deram um cheirinho do porquê de serem uma das mais obrigatórias bandas portuguesas quando se fala de peso. Os The Charm The Fury cumpriram não deixando no entanto grandes saudades seguindo-se o primeiro concerto no Palco Loud!, a cabo dos portuenses Névoa, donos de algum do melhor black metal luso, conceptual e desafiante. De regresso ao Palco Principal, os Insomnium, apesar de terem dado um concerto demasiado grande com dispensáveis “do you want more?”, mostraram o que valem ao interpretarem o excelente “Winter’s Gate” na íntegra juntamente com temas de outros álbuns, conseguiram transpor o ambiente misterioso e denso dos seus registos para o palco do VOA Fest. Seguiram-se os Earth Drive que, perante uma boa plateia, desfilaram o seu rock com claras influências stoner e psych, parecendo mais soltos e fluídos do que noutras ocasiões que os vimos, tendo os The Black Wizards sido os últimos a atuar no Palco Loud!, tendo apresentado músicas de “What The Fuzz!” com edição prevista para setembro. Antes tocaram os Epica que fizeram as delícias de muitos dos presentes, com a voz potente de Simone Simons a ecoar por toda a Quinta do Marialva. Não somos fãs da sonoridade da banda, achamo-la previsível, com arranjos formatados, sendo que o ênfase dado às vocalizações apenas piora o cenário, pois acabam por existir algumas interessantes partes instrumentais. A fechar o primeiro dia do festival, algo bem mais interessante, pesado e desafiante. Os britânicos Carcass desfilaram classe na Quinta do Marialva, com um concerto potentíssimo. Uma verdadeira instituição no que toca a música extrema, a banda apresentou um alinhamento transversal à sua carreira, passando por temas como “Buried Dreams”, “Exhume To Consume”, “Ruptured In Purulence” e “Corporal Jigsore Quandary”. Para onde nos virássemos era fácil constatar a felicidade na cara dos presentes, que exteriorizavam o que lhes ia na alma, cientes que estavam na presença de uma banda mítica que não deixa os créditos alcançados por mãos alheias. O ponto alto do primeiro dia foram mesmo os cabeças de cartaz não obstante a duração algo reduzida do concerto.

Insomnium

Carcass

O segundo dia do festival começou com algum do melhor trash-metal feito em Portugal, cortesia dos Terror Empire que já apresentaram temas de “Obscurity Rising” com edição em setembro. Um som coeso e potente a testemunhar que os Terror Empire merecem alcançar coisas boas. De seguida atuaram os espanhóis Childrain que não surpreenderam com os Adamantine a inaugurar o Palco Loud!, com o seu trash-metal a ser um prejudicado devido aos problemas de som. Continuando com trash-metal como prato principal, os Death Angel eram uma banda muito esperada, importantes que foram na década de oitenta, não tendo alcançado outros voos por vicissitudes várias. A banda evidenciou toda a tarimba que só muita estrada e talento pode fornecer, com o concerto a incidir maioritariamente em “The Evil Divide”. Bastantes agradecidos pelo apoio recebido, passaram ainda por “Falling Off The Edge Of The World” dos Black Sabbath, era Ronnie James Dio. Os Cruz de Ferro mostraram no Palco Loud! bom heavy-metal de contornos tradicionais, seguindo-se os icónicos Venom no Palco Principal que passearam classe pelos temas mais antigos como Blood Lust”, “Black Metal” e Welcome To Hell”, não deixando de presentear a assistência com temas mais recentes como “From The Very Depths” e “The Death Of Rock’n’Roll”. Em suma, um bom concerto sem deslumbrar. A fechar o Palco Loud! os Rasgo, compostos por malta conhecida destas andanças, mostraram a sua fusão de metal com hardcore que faz aumentar a curiosidade sobre o disco de estreia, “Ecos da Selva Urbana”, com saída em outubro. A fechar a noite os Apocalyptica recordaram o disco com que se apresentaram ao mundo, interpretando temas clássicos dos Metallica, com o virtuosismo que lhes reconhecemos. Com a multidão a servir como uma espécie de James Hetfield, pois muitos dos temas foram (bem) vocalmente acompanhados pelo público, “Fade To Black” contou com o auxílio de uma bateria em palco. Para o fim houve ainda “Thunderstruck” dos AC/DC e as habituais “Nothing Else Matters” e “One”. Mais que um concerto, assistir a “Apocalyptica plays Metallica by four cellos” é uma experiência de partilha, onde banda e público celebram temas enormes edificados por um conjunto de homens que já moram no Olimpo da música pesada. É de comunhão e de devoção que falamos aqui e foi isso que se passou na Quinta do Marialva.

Death Angel

Venom

O terceiro e último dia do festival, o que parece ter levado mais pessoas à Quinta do Marialva, teve início com os Colosso que não obstante o calor que se fazia sentir no recinto, deram um concerto bastante enérgico e que obteve boa receção por parte da plateia. Seguiram-se os espanhóis Killus com um visual goth-gore e uma sonoridade que mistura metal com punk e industrial sem resultados muito relevantes, e os portugueses Don’t Disturb My Cicles que subiram a fasquia com um concerto potente. Hardcore de boa casta e uma prestação como se estivessem a tocar num palco maior, a atitude correta portanto. De seguida uma banda importante quando se fala de música extrema feita nos finais dos anos oitenta. Os norte-americanos Obituary deram um concerto muito intenso onde nenhuma nota saiu ao lado. Com um som incrivelmente coeso, debitaram malhas atrás de malhas, recebidas em êxtase pelo público – que criou vários circle pits – numa altura em que já havia uma distinta moldura humana. Uma prestação intocável e plena de precisão técnica e uma boa disposição evidente por parte de todos os membros da banda. A seguir tocaram os Grog, com o seu grindcore competente, com o destaque principal a incidir no último “Ablutionary Rituals”. Havia energia e atitude a rodos mas na verdade já só pensávamos no que se seguiria. Tratava-se de um dos últimos concertos de sempre (embora nestas coisas nunca se saiba) dos The Dillinger Escape Plan, uma das mais geniais, autênticas e demolidoras máquinas de destruição sonora a surgir nas últimas décadas, um autêntico hino ao caos, à libertação da energia que cada um de nós encerra. E é isso de que se trata quando vemos um concerto dos TDEP, libertação de energia, dos nossos medos, receios e ânsias. Com uma presença incrível em palco por parte de toda a banda, é no entanto apenas natural fixarmos o nosso olhar no enérgico vocalista Greg Puciato – dono de uma amplitude vocal à qual não é alheia uma clara influência de Mike Patton que chegou a gravar um EP com a banda – e no guitarrista Benjamin Weinman, endiabrado e possuído, deixando-nos de boca aberta com o facto de não falhar um único riff enquanto dá dezenas de saltos por concerto. Não que isto seja um concurso de ginástica mas é de facto impressionante que, a uma música que é incrivelmente técnica, Ben consiga aliar uma absoluta incapacidade em tocar dois riffs seguidos quieto no mesmo sítio. Banda que não atuava em Portugal há 13 anos, os TDEP ficaram admirados com a (merecida) receção que lhes foi feita. Não irão voltar mas ninguém vai algum dia esquecer “aquilo”. Ainda nada recuperados de tamanha tareia sónica dirigimo-nos para testemunhar o último concerto no Palco Loud!, cortesia da melhor revelação da música extrema portuguesa dos últimos tempos. Os The Ominous Circle editaram um disco que figura merecidamente em muitas das listas dos melhores discos este ano e em palco a banda consegue transpor todo o ambiente criado em estúdio. Os adereços no palco ajudam à atmosfera, a sonoridade é crua, brutal e transpira escuridão e putrefação. Os The Ominous Circle vão deixar muita gente de boca aberta, em Corroios deixaram alguns. Quem já os conhecia já ia preparado. A fechar o festival os Trivium dificilmente deixam alguém de boca aberta. A seguir às duas anteriores sovas – uma carregada de decibéis transviados, a outra plena de peso denso como o pior nevoeiro de Londres – a música dos Trivium soa a rebuçado já previamente mastigado por alguém, isto é, o sabor não é nada de especial e já vimos e ouvimos aquilo ser feito várias vezes e bem melhor. A banda privilegiou os registos “Ascendancy” e “In Waves”, tendo recebido calorosos aplausos da plateia, naquela que foi uma prestação competente e que terá enchido as medidas dos fãs que há cinco anos esperavam pelo regresso dos Trivium a solo lusitano.

Obituary

The Dillinger Escape Plan

Cresce desde já a curiosidade para ver quem aterrará no próximo ano na Quinta do Marialva e se a opção por três dias de duração, feita pela organização, está para ficar. Até para o ano!

Os nossos agradecimentos à Prime Artists.

Fotografias: Ruben Viegas.

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