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Música

Published on Setembro 22nd, 2017 | by Daniela Azevedo

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Músicos portugueses celebram o legado de Leonard Cohen

David Fonseca, Miguel Guedes, Jorge Palma, Mazgani, Samuel Úria e Márcia foram as vozes nacionais que homenagearam o músico canadiano no dia em que faria 83 anos. O concerto, que durou mais de duas horas, realizou-se no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, a 21 de setembro.  

O último álbum de Cohen, lançado há quase um ano, era apontado como a obra-prima da sua carreira: profundo, rico e potente em qualidade musical e emocional. O concerto de tributo português de ontem à noite valeu cada minuto de televisão que se trocou por uma noite de música ao vivo.

O espetáculo, que decorreu no Centro Cultural Olga Cadaval, com o apoio da Embaixada do Canadá em Portugal, foi o primeiro de uma digressão que também vai passar pelo Porto, pela Figueira da Foz e por Loulé, em concertos já praticamente todos esgotados como o desta quinta-feira.

Os músicos portugueses, que assumiram ligações pessoais e fortes à música de Cohen, ensaiaram por pouco tempo antes da atuação, o que acabou por conferir alguns momentos verdadeiramente genuínos no desfilar dos grandes êxitos, personalizados ao estilo musical de cada um, pela noite fora. Em palco, apenas focos de luz, nada de muito vistoso, sempre encimados por uma imagem do chapéu que foi imagem de marca do músico. Outros tantos, mais pequenos, “caíram” sobre o palco mais tarde.

O primeiro poeta de serviço foi Mazgani com ‘If It Will Be Your Will’, seguida de ‘Take This Waltz’, de 1986, para criar logo um momento de grande identificação com o público que bem se lembra da canção em tributo a Federico García Lorca. Mazgani conseguiu trazer-lhe algum exagero interpretativo de chanson francaise que o tema sugere por ter sido gravado em Paris.

Miguel Guedes foi o senhor que se seguiu. Em plena forma vocal e prestes a lançar um novo álbum com a sua banda, os Blind Zero, o cantor deu voz e alma à ‘Tower Of Song’, também dos anos 80, e a seguir indicou-nos o túnel do tempo até 1967 e a uma canção cheia de peculiaridade: a que abre o lado A do álbum de estreia, “Songs of Leonard Cohen”, e que ganhou o nome de alguém que, outrora, recebera Cohen de forma muito hospitaleira com o tal chá com pedaços de laranja que descreve na canção: ‘Suzanne’.

A cada duas canções, temos artista novo em palco, o que nos dá a certeza de estarmos perante uma banda de apoio para a qual os bons adjetivos não chegam. Haja capacidade de adaptação a cada estilo! O próximo é de David Fonseca que nos diz que, curiosamente, conheceu Cohen através dos Pixies que popularizaram uma versão de ‘I Can’t Forget’, a primeira que escolheu interpretar. ‘Hey, That’s No Way to Say Goodbye’ ocupou os minutos seguintes da sua também sentida interpretação.

Samuel Úria, mais um dos fãs confessos de Cohen mas também “do vosso xarope que uso nas panquecas”, dirigiu-se de forma particularmente afável aos membros da embaixada do Canadá presentes no Olga Cadaval. Surge mais uma interpretação descolada da original e mais próxima ao estilo individual do músico que lhe deu voz: ‘Everybody Knows’ e ‘Lover Lover Lover’, de 1974, tendo sido a primeira vez que um dos cantores pediu que o público se juntasse aos coros. Em 2013 ainda Cohen cantava esta música com grande sentimento.

Pouco depois, Márcia juntou-se a Samuel Úria para, juntos, cantarem mas, acima de tudo, dançarem e encantarem com uma nota de bem-vinda leveza o tema ‘Dance Me To The End Of Love’. Se Cohen descrevia a perfeição como poucos, este momento teve algum desse toque. “Ao contrário destes senhores, que vêm todos de escuro, eu escolhi um vestido amarelo porque hoje quero celebrar a vida”, disse Márcia, a justificar o seu alegre e contrastante outfit amarelo e florido para a noite de quinta-feira.

Pouco a pouco, os músicos foram repetindo a presença em palco para mais músicas num concerto no qual Pedro Vidal assumiu a direção musical e guitarras, João Correia esteve na bateria, Nuno Lucas no baixo, João Cardoso nas teclas, Paulo Ramos e Orlanda Guilande asseguraram os coros. Ainda se viveu um arrepiante momento graças a David Fonseca e à transcendente interpretação de ‘Hallelujah’ e à gutural e quase revoltada versão de ‘Im Your Man’, de Miguel Guedes.

A resposta do público português à admiração que Cohen continua a reunir são três das noites de tributo esgotadas. Só o Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz tem ainda alguns bilhetes à venda. A 27 de setembro o concerto é na Casa da Música, no Porto, a 29 de setembro no Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz e a 10 de outubro no Cine-Teatro Louletano.

Falta a referência a Jorge Palma – elegante, discreto, profissional e encantador. O “senhor piano” escolheu precisamente este instrumento para interpretar ‘Bird On The Wire’, enquanto ‘First We Take Manhattan’, do álbum “I’m Your Man”, de 1988, um dos mais populares na carreira do artista homenageado, foi a música escolhida para a despedida de Palma a solo. O músico, para um final cheio de energia, pegou na guitarra e acompanhou todos em ‘So Long, Marianne’, a canção que Cohen fez para Marianne Jensen, com quem viveu e a quem a dedicou quando se separaram, tendo sido, contudo, um dos dois grandes amores da sua vida que nenhuma outra namorada apagou. Curiosa mas tristemente, ambos morreram de cancro no ano passado. Tudo o que esta canção encerra se reviveu ali, no Olga Cadaval.

De recordar que Leonard Cohen morreu a 7 de novembro de 2016, pouco tempo depois de lançar o 14.º álbum de originais, intitulado “You Want It Darker”. Marianne morreu quatro meses antes.

Foto de Filipe Pedro.

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