Festmag

Música

Published on Setembro 19th, 2017 | by festmag

2

Vodafone Paredes de Coura: a inesquecível festa dos 25 anos

Faz hoje um mês terminou o Vodafone Paredes de Coura. Isso significa que já só faltam 11 meses para voltarmos ao Couraíso. O 25.º aniversário não poderia ter sido mais feliz e a edição deste ano foi, como afirmou João Carvalho, “a melhor de sempre, a vários níveis”.

As bodas de prata de relações felizes levam sempre a renovação de votos e não haja dúvidas de que a relação dos festivaleiros com o Paredes de Coura é uma das que merece constantes juras de amor. Este ano os parabéns vieram da organização – o recinto mais relvado, a zona de campismo mais confortável, o cartaz ainda mais coeso – e das bandas. Os Mão Morta, no primeiro dia do festival, onde apresentavam “Mutantes S. 21”, sublinharam durante mais um memorável concerto, que foi no “festival mais antigo do país” que cresceram musicalmente. Isto entre viagens às noites de Budapeste, Barcelona, Paris ou Berlim. Mais um momento inesquecível para adicionar à história do festival.

Os Future Islands chegaram ao palco do Vodafone Paredes de Coura com “The Far Field” dentro de um bolso e um mundo de expetativas no outro. Este quarto álbum da banda americana, liderada pela voz de Samuel T. Herring, continua na demanda da música orelhuda e apoteótica, e a catarse ou a festa instalou-se. “Ran”, “A Dream Of You And Me”, “Aladin” ou as muitas aguardadas “Seasons (Waiting On You) e “The Beaut Of The Rose” são canções-singles, ou não continuasse este novo álbum nos trilhos do seu terceiro registo “Singles”. E fizeram as delícias de um público que desde o primeiro momento só esperou a chama para uma ebulição maior. E se dúvidas pudessem subsistir que a festa maior da boa música começara, aqui se dissiparam-se com uma plateia entregue à libertação maior, a da música pelo corpo e pela vozes que em uníssono espantaram males e maleitas.

Outro dos destques desta primeira noite, ainda só com um palco, foi para uma Kate Tempest impiedosa e agressiva, dona da palavra que usa como sal em feridas. Anunciou ao que vinha, contar a história e as vidas por detrás de “Let Them Eat Chaos”, segundo álbum da cantora britânica. Ao longo de mais de uma hora tudo é palavra, pensamento e sentimento. Tudo é dito e tocado, sem medos ou preconceitos. A preceito a banda por detrás da palavra afiada dá o beat e o ritmo enquanto Kate Tempest dá consciência, incita dúvidas, perguntas e o teu melhor. Esta será certamente a melhor música de intervenção pós-globalização, como tal é bem mais que música, é também a inquietação de um mundo insatisfeito porque injusto.

Car Seat Headrest chegou ao segundo dia do Vodafone Paredes de Coura na continuação de um processo de enamoramento e afirmação iniciado apenas no ano passado. Com ainda alguma timidez em palco, Will Tolledo desfila os temas maiores do seu recente sucesso, sempre com o ar do miúdo  mais palerminha da escola que o carateriza. “Drunk Drivers/Killer Whales”, “Fill in The Blank” ou “Destroyed by Hippie Powers” fazem as delícias de uma plateia ensolarada que cresce a par com a naturalidade em palco do músico norte-americano. A acabar ainda há tempo para a versão do temos dos canadianos Arcade Fire, “War Is Coming (If You Want It)”, com a certeza que mais e maiores palcos e públicos também chegarão se assim quiserem, é apenas uma questão de estrada.

King Krule demonstrou porque aos vinte e picos é dos artistas mais falados do momento e o porquê de andarmos nesta coisa do enamoramento com bandas recentes. É que esta nova geração de músicos dá esperança à música e à humanidade e quer seja na voz potente por detrás do corpo franzino, quer as letras aguçadas, quer a mistura sónica que arranca da banda, King Krule veio mesmo para fazer história.

Apesar de terem eles próprios uns 25 anos como banda os At the Drive-In comprovaram também que devemos apostar as fichas nesta nova geração. No caso não de músicos – apesar de Bixler-Zavala continuar com a energia de um puto de 20, ou de Rodriguez-Lopez parecer ainda imberbe – mas de festivaleiros a quem os At the Drive-In, depois de longo hiato, poderiam não dizer nada. Mas o que assistimos foi a um alinhamento perfeito de jovens corpulentos desejosos de mosh com os cotas conhecedores da caminhada da banda de El Paso e com as letras na garganta. Quer “Interalia”, o mais recente disco, quer “Relationship of Command” e os seus temas avassaladores foram recebidos em apoteose, com camadas de pós e, sobretudo, muita energia. Memorável.

Nick Murphy, nasceu Nicholas Murphy, mas foi enquanto Chet Faker que conquistou o mundo, da música pelo menos. Pelo pela primeira vez por cá após o abandono do alter-ego, esperava-se ainda assim mais do mesmo. Música de afetos e amores, palavras embaladas, muito suspiro e claro o velho “Built On Glass” e o novíssimo EP “Missing Link”. Com  músicas como  “Talk Is Cheap”, “1998”, “Gold”, “Bend” ou “The Trouble With Us” mais que rodadas, nada aconteceu por acaso ou sequer ao lado. Música como entretenimento no seu melhor, a entreter corações famintos com sensualidade disfarçada de pop melosa e dançável. Qual seta certeira e assertiva. Ou máquina afinada mas talvez demasiado afinada.

Após um longo dia de mergulhos no rio, que o calor veio para abençoar a edição, as temperaturas continuaram a subir em Paredes de Coura. A culpa foi tanto dos Young Fathers, que dentro da sensualidade do hip hop e a pujança da eletrónica provaram que “Get Up”, “Sister” ou “Only God Knows” são “temazos”, como dos BadBadNotGood. Este é mais um daqueles sérios casos de enamoramento, que começou com o disco IV e se reforçou neste concerto mágico onde um baterista – Alexander Sowinski – pode ser o melhor dos frontman e que num concerto de base jazzística pode haver “moshada” da boa. Que concertaço!

Os Japandroids, uma das últimas confirmações do festival, vieram para jogar em casa. Após a passagem anterior por este mesmo festival, a participação no Nos Primavera deste ano e a gravação do mais recente videoclip na cidade do Porto, como o próprio Brian King nos deu conta. Começaram o tema que dá nome o mais recente álbum, “Near to the Heart of Life” e não mais abrandaram. O rock com laivos de punk de “Fire’s Highway” ou “North East South West” fizeram as delícias, sobretudo, dos mais novos. E assim, alheios à música ou à sua repetição, deram largas ao mosh e ao crowdsurf.

Os Beach House chegaram à 25.ª edição do festival de Paredes de Coura para dividirem mais que conquistarem. Provavelmente, fruto de um pouco mais de meia-hora de atraso devido a problemas técnicos que maçaram e agitaram um público em rubro. A música negra ou pouco luminosa da banda dream pop de Baltimore pouco ajudou a arrebitar a plateia sedenta de movimento. Alex Scally e Victoria Legrand após um pedido de desculpa iniciais continuaram imperturbáveis e cabisbaixos como sempre na senda do etéreo. Debaixo de uma chuva de estrelas desenhada na contraluz do palco principal choveram “Silver Soul”, “Take Care” ou “Space Song”. Há quem diga que odiou, há quem diga que amou.

Quase a terminar a noite de sexta- feira, os Roosevelt transformaram o palco Vodafone FM numa gigante pisca de dança. Tensões acumuladas foram descarregadas ao som de choques eletrizante naquela que seria a dança mais quente das notes mais frias do after-hours.

Os Foxygen continuaram em parte a atitude jazzística deste festival, mas desta debaixo de purpurinas, brilhos e muito flirt. A banda californiana de Jonathan Rado e Sam France, este último responsável por uma dinâmica de performance e alguma provocação com direito a mudanças de indumentária. “Follow the Leader”, “Avalon”, “Shuggie” ou “San Francisco” gingaram ancas e arrancaram sorrisos no início daquele seria o último e mais aguardado dia de música na margens do rio Coura.

O músico australiano Alex Cameron trazia entretanto o seu primeiro álbum “Jumping  the Shark”, de 2013 mas recentemente reeditado pela Secretly Canadian e o recent “Forced Witness”, com edição já deste ano. Acompanhado de saxofone e sempre com o ar de criança rebelde e traquinas entre movimentos de estrela do rock convenceu um público ainda escasso mas muito devoto.

Benjamim Clementine chegaria à edição deste ano para a tomar de assalto e deixar dúvidas de qual o nome maior deste festival. Com músicas novas e o disco “I Tell a Fly” ainda fresco, o caminho e a fórmula mantêm-se: doses de compaixão, humildade num gigante exercício de compreensão e identificação com o próximo. Em palco como nunca o vimos por cá, bateria, teclados, guitarra e coro feminino de cinco vozes em registo operático, a mensagem saiu ainda mais clara, nítida e forte. E durante cerca de uma hora mais de trinta mil pessoas comungaram o poder da música mas sobretudo o poder da esperança. Seja pela força e megalomania das recentes Phantom of Alepoville”, “God Save the Jungle” e “Jupiter” ou pela emoção e simplicidade das velhas “Nemesis” ou “Cornerstone” tudo é ferida aberta, que dói e se sente. “Condolence” seria um dos momentos altos da noite, feito manifesto de um mundo que não pode ter medo. O concerto terminaria com “Adios” para deleite de uma plateia tão rendida como os músicos em cima do palco, naquele que seria o apogeu de um dos motes maiores do Paredes de Coura: a partilha.

Mote esse que os Foals fizeram questão de não abandonar conseguindo unir as mais de 25 mil almas numa celebração da música e da vida. Com “My Number” não há quem mantenha os pés no chão, em “Spanish Sahara” há arrepios de pele, “Electric Bloom” arrebata o anfiteatro e “Two Steps, Twice” demonstra como a banda dos rapazes de Oxford é uma das melhores da casta dos anos 2000 e este é sítio certo para eles tocarem. Porque no paraíso de Coura os astros alinham-se de forma mágica. Já só faltam 11 meses… a próxima edição é entre 15e 18 de agosto de 2018.

Texto: Pedro Beja Alves e Pedro Guimarães
Fotografias: Hugo Lima

Os nossos agradecimentos à Ritmos.

 

Siga-nos aqui:

Related Images:

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , ,


About the Author



Back to Top ↑