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Published on Novembro 19th, 2017 | by festmag

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Daddy Issues

Father John Misty é o artista que muitos adoram odiar e outros tantos amar. Será o mistério da sua persona misturado com o sarcasmo das suas composições o seu maior trunfo?
Josh Tillman está de regresso a Portugal para um concerto em Lisboa no próximo dia 20 de Novembro. O Coliseu recebe o final da tour de “Pure Comedy”, o álbum lançado em Abril de 2017.

Abordar o assunto Tillman de forma rápida para marinheiros de primeira viagem e seguir com a nossa vida: Father John Misty é o alter ego de Josh Tillman, multi-instrumentalista, compositor e cantor norte-americano, que integrou a banda Fleet Foxes como baterista. Lançou-se a solo como J. Tillman e editou oito álbuns. “Hollywood Forever Cemetery”, do álbum Fear Fun de 2012, foi o seu primeiro single a ganhar notoriedade sob o nome Father John Misty. Desde aí já lançou mais dois trabalhos, o aclamado “I Love You, Honeybear” e o mais recente “Pure Comedy”. Escreveu músicas para Lady Gaga, fez um dueto com Lana Del Rey, participou no último álbum de Avalanches, tem duas frases numa música da Beyoncé, fez covers sarcásticos da Taylor Swift. Agora vamos ao que interessa.

Apaziguado pelo amor mas atormentado pelo Mundo, esta poderia ser a definição mais fácil e, mesmo assim verdadeira, de Father John Misty. Podemos até acrescentar, um Mundo criado por um Deus a quem devemos obedecer e reverenciar. Nascido no seio de uma família evangélica, Josh Tillman cresceu sob a égide do dogma, ao mesmo tempo que alimentava uma personalidade rebelde e inquisitiva mas presa a um total desconhecimento do Mundo real pela proibição. Não parece uma história nova, todos conhecemos o percurso de artistas cuja arte foi marcada pela vivência de situações às quais se opunham e dessa fricção nasceram as obras mais interessantes.

Então o que há de especial em Father John Misty? Há quem diga «Nada». Eu digo «Muito!». Parece-me óbvio que um compositor é interessante quando aborda temas como o amor de forma sarcástica através da crítica de tradições sociais, como o casamento, num álbum conceptual sobre a relação com a sua mulher; que aponta o dedo ao intelectualismo pedante através de temas hedonistas; que critica Deus do ponto de vista do Homem e não da religião (será Josh Tillman verdadeiramente ateu?); que faz uma colaboração ideológica e estética com Ed Steed, um dos mais conceituados cartoonistas da “New Yorker”, no álbum “Pure Comedy” (uma violenta crítica política e social na sua abordagem mais barroca e psicadélica da folk americana); que surge em palco como um pregador sexy ondulando entre acordes e proporcionando grandes momentos de entretenimento mas criticando ferozmente o entretenimento. Ficaria aqui eternamente.

Josh Tillman parte de uma premissa muito simples, «Porque é que as coisas são como são?», e isso faz com que nunca consiga encontrar uma resposta satisfatória e ainda menos que nós lha possamos dar. E nessa constante ansiedade por uma equação que faça sentido vai chafurdando numa depressão funcional que o impele a ir até todos os precipícios e olhar para baixo, e em baixo estão as questões mais fracturantes da sociedade e da natureza do Homem. É Father John Misty um humanista? Não; ou, não só. No nome que escolheu podemos encontrar algumas respostas, uma mistura de religião e paganismo, e uma proximidade com o aspecto artístico da representação de um pastor no culto que muito o fascinava em criança.

Father John Misty não dá respostas, esmiúça as feridas infligidas pela imperfeição do Homem, pelo próprio Homem, através de um enorme talento lírico que, tanto pelo conteúdo como pela estética, o deixa a pairar no quase impossível plano de um punk hippie. Mas termina quase sempre num tom positivo, o que é surpreendente, como aconteceu com “In Twenty Years Or So”, faixa que remata “Pure Comedy”.

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Amanhã, dia 20 de Novembro, sobe ao palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, com a banda que o tem acompanhado nos últimos anos que, depois de algumas modificações, a formação ideal parece ter sido encontrada. Aos Mistys acrescenta secções de sopro e de metais como nunca fez antes e será, por isso, um concerto único em Portugal. Os temas orquestrados de “Fear Fun” ou “I Love You, Honeybear” podem ser ouvidos pela primeira vez como em álbum. E os arranjos mais ambiciosos de “Pure Comedy” encontram fidelidade no som ao vivo o que confere ao espectáculo uma magnitude quase eufórica e os coros gospel não estão lá por acaso.

Father John Misty tem vindo, ao longo do Verão, entre interregnos da tour, a compor e a gravar faixas para o novo álbum cuja edição já está prevista para o primeiro semestre de 2018.

Texto: Vera Rodrigues | Veracity Music
Fotografia: Cátia Duarte Silva

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