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Música

Published on Dezembro 10th, 2017 | by Pedro Guimarães

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Reportagem | Under the Doom V sonoriza o inverno

A quinta edição do Under The Doom passou pelo RCA Club e pelo Lisboa ao Vivo guardando para memória futura estrondosos concertos de Foreshadowing, GOLD, Acherontas e In The Woods…

Não tendo sido possível comparecer ao dia 0 do festival, o meu Under The Doom iniciou-se na sexta-feira no Lisboa ao Vivo com os regressados Inhuman que recordaram o clássico “Strange Desire” para uma plateia que já se começava a compor. Editado em 1996, altura de florescimento do metal português com os Moonspell à frente do pelotão, o disco de estreia contém ainda os atributos que o tornaram num disco de culto. Resta saber se o futuro reserva ainda algo para os Inhuman.

Seguiram-se os Cellar Darling formados com ex-membros dos Eluveitie, com um rock pesado interessante q.b. e uma prestação segura. A coisa é por vezes interessante, como o tema “Black Moon”, sempre bastante orelhuda mas eis que a paciência se esgota com a inenarrável “Avalanche”. Um euro por cada vez que Anna Murphy profere a dita palavra e já teria dinheiro para ir amanhã de férias. A bandeira portuguesa visível desde o primeiro acorde também era desnecessária…

Os italianos Foreshadowing, com quatro discos editados entre 2007 e 2016, deram a seguir um excelente concerto com uma sonoridade majestosa a lembrar uns My Dying Bride mais luminosos e a ouvidos a 45rpm. Marco Benevento é possuidor de uma bela voz, melódica (sem ser monocórdica) e colocada como muitos desejariam ter e a banda, coesa e certinha, prestou-lhe um justo complemento, naquele que foi um dos melhores concertos do dia.

Os Green Carnation, com ligações aos cabeças de cartaz do dia seguinte, os In The Woods…, mantiveram a fasquia alta obtendo uma resposta condigna por parte do público presente no Lisboa ao Vivo. Com atuação poderosa, mostraram porque é que o seu doom metal, influenciado pelo prog (e até pela música clássica), não tem muitos rivais à altura. 

Seguiu-se Liv Kristine que encheu as medidas dos fãs que a esperavam no Lisboa ao Vivo, interpretando temas dos Theatre Of Tragedy e também canções dos seus discos em nome próprio. A fechar a noite, os italianos Lacuna Coil não deixaram os créditos por mãos alheias e levaram ao rubro grande parte da plateia da sala lisboeta, não deixando muitas dúvidas ter sido por eles que muitos se deslocaram à zona da Fábrica do Braço de Prata. O alinhamento baseou-se no último registo, “Delirium”, passando também por outros discos da já longa carreira da banda, incluindo uma versão do clássico “Enjoy The Silence” dos Depeche Mode.

O último dia do festival era, sem dúvida, o melhor de todos em termos de alinhamento. A coisa não se fez por menos e os mais pontuais e preocupados com isto de presenciarem a maior quantidade de concertos que conseguem, sempre com vontade de conhecerem bandas ou de verem um grupo que – ao contrário da maior parte das pessoas – já lhes é familiar, deram o final de tarde por muito bem empregue.

Os holandeses GOLD deram um belo concerto, com a bela voz de Milena Eva a servir o som denso e negro da banda, ora negro, ora luminoso. A postura misteriosa e cândida de Milena contrastava com os ataques ferozes que as guitarras sofriam às mãos de Jaka Bolič, Kamiel Top e Thomas Sciarone. A apresentar o recente “Optimist”, os GOLD tiveram uma excelente prestação e são uma banda a seguir de perto.

Os Novembers Doom, cada vez com uma sonoridade mais polida e limpa, destacando-se das pinceladas death de outrora, causaram algum enfado, com as músicas a soarem demasiado parecidas entre si, algo genéricas e derivativas. Ou então, simplesmente não estava para ali virado e senti o bar a chamar-me. Dou o benefício da dúvida.

Já a referida dúvida não nos assalta a mente quando nos deparamos para mais um concerto – mais conhecida como a providencial tareia – patrocinada pelos mestres do doom feito em Portugal. Os Process of Guilt deram mais um belo concerto, com “Black Earth” em destaque, como que uma montanha sonora que nos puxa para dentro dela, como num remoinho em que vamos caindo, caindo até ao infinito, ficando apenas a dúvida se queremos ou não de lá sair.

Com algum atraso nos horários, algo que já se tinha verificado na sexta, seguiu-se uma das (minhas) maiores atrações de todo o festival: a instituição grega que dá pelo nome de Acherontas. O black metal aterrou no RCA Club, destruiu e devorou tudo à sua volta, num ritual que atingiu níveis de exceção na devoção ao chifrudo. Uma atuação poderosíssima a dar valor à escolha deste tipo de sonoridade num festival com “doom” no nome. As etiquetas estão na nossa cabeça.

À semelhança dos PoG, também os Ahab eram repetentes do Under The Doom, sendo que nesta aparição iriam interpretar na íntegra a obra magnânima que é “The Call Of The Wretched Sea”. Já com muita tarimba adquirida através dos muitos kilómetros percorridos na estrada, os Ahab tiveram uma prestação digna do referido disco, onde cada riff e cada compasso de espera estava no ponto. Uma bela viagem sonora ao imaginário do clássico de Herman Melville.

A fechar o Under The Doom edição 2018 os In The Woods…, banda de culto dos anos 90. Com clássicos do underground na bagagem como “Omnio” ou “Strange In Stereo”, a banda regressou recentemente com uma formação renovada, editando “Pure” em 2015. Com a atmosfera a que nos habituaram, algo fantasmagórica e dada a acompanhar contos habitados por criaturas míticas, a plateia compunha bem o RCA Club, assistiu a um belo concerto por parte dos noruegueses.

Por fim, registe-se a persistência e tenacidade com que a Notredame Productions continua a levar a cabo o Festival Under The Doom. A menos que a memória me esteja a pregar partidas, não me recordo de outro festival dedicado à música pesada que tenha lugar em Lisboa (saudades Burning Light Fest!), algo que pareceria “básico” e “natural” numa cidade cada vez mais cosmopolita. A verdade é que as pessoas são muito dadas a sentirem falta do que já não têm, enquanto têm a possibilidade de terem algo ou acesso a determinada coisa, vêem isso como um dado adquirido, atribuindo-lhe por vezes o real valor apenas quando essa possibilidade termina.

Não é que, na sua quinta edição, o festival tenha estado “às moscas”, mas a verdade é que não terá tido o burburinho prévio e a presença de fãs que merecia. Basta aliás, percorrer o facebook para perceber que muitos preferem queixar-se e efetuar pedidos descabidos de bandas para o cartaz do que ir apoiando este e outros eventos, porque é assim que a coisa se faz: caminhando. O facto é que o cartaz desta quinta edição do festival – especialmente o alinhamento de sábado – merecia esse maior apoio e presença.

Cá vos esperamos para o ano… Under The Doom!

Fotos da página oficial do Lisboa ao Vivo

Os nossos agradecimentos à Notredame Productions

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