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Música

Published on Dezembro 22nd, 2017 | by festmag

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Tricky livre e cada vez mais dark – ao vivo em Paris

Ununiform” é o álbum mais honesto de Tricky das últimas décadas. Não por qualquer desrespeito à sua identidade musical mas à prisão a contratos. “Ununiform” foi feito porque queria ser feito e essa liberdade transformou Tricky do avô do trip hop para o deus do trip hop. Há coisas a serem ditas, muitas coisas. E tantas para saltarem do fundo do peito, preso desde os 4 anos, quando olhava para o caixão da mãe colocado no quarto ao lado. Pergunta o que se se segue, para onde vamos agora? E canta-o com Martina Topley-Bird em “When We Die”.

Sim, agora é tudo mais negro, tudo mais incisivo, não é só o som que nos trespassa e atira para um espaço escuro de confronto onde a dança e a expressão física era o que mais sobressaía num concerto de Tricky. Se já foram a alguns, desafio-vos a encontrarem público a dançar daquela forma em qualquer outro sítio. E assim continua a ser.

O experimentalismo de Tricky que dispara balas do trip hop ao rock acerta-nos de forma certeira mas não nos amortece a queda nas suas paradas de génio, sim, poucos são os que conseguem criar aquelas dinâmicas ao vivo. Ficamos a pensar, não há outra forma, sou um extra-terrestre que aqui caiu, estás melhor sem mim, é a única maneira (the only way).

Perdoem-me por me ter perdido, esta não é uma review ao Tricky, é uma experiência no Elysée de Montmartre, em Paris, numa noite de Dezembro. Uma pequena multidão acumula-se à entrada a fumar o último cigarro permitido ali no Boulevard Rochechouart, na esquina da Rue de Steinkirque que nos leva directamente à Sacre Coeur; podemos vê-la daqui, iluminada na cidade das luzes. Os cigarros vão sendo apagados nas solas dos sapatos no alcatrão de um boulevard que conheceu uma clientela mais peculiar há uns anos, ainda há muito rufia, sem abrigo e prostituta mas a gentrificação de Montmartre e Pigalle levou à ironia de ter os meninos finos de Paris a conviver com os proxenetas, ou não foi sempre assim? O Elysée de Montmartre vai-se enchendo com pessoas de diversas tribos e faixas etárias e é um ambiente estonteante, enérgico, elevado.

Há um DJ a tocar. «Porque é que os DJ’s agora são super estrelas?» ouvi o Tricky dizer numa qualquer entrevista que deu há uns tempos, talvez por isso tivesse colocado um a abrir para uma verdadeira estrela. O concerto começa à hora marcada, Tricky aparece no palco às vinte e uma horas em ponto na contra luz dos azuis e vermelhos, como gosta. A silhueta faz o público vibrar e arranca um concerto de emoções exaltadas. Raras vezes vi o público francês tão eufórico e reactivo e o britânico agradecia com inúmeros «Merci».

Tricky está limpo e isso não suja em nada o espectáculo. Controlado no seu descontrolo, só a música o move, mexe e remexe na roupa em movimentos frenéticos enquanto manobra dois microfones, enrola-se nos cabos, salta para a bateria, canta nos overheads, está imparável. Algo que não podíamos dizer há uns tempos, quando os seus concertos eram feitos de momentos de mudança de humor, de desequilíbrio e apatia, as idiossincrasias dos tempos de “Pre-Millenium Tension” parecem ter desaparecido. Há um Tricky novo, desempoeirado, firme e dedicado que aposta num som agressivo, uma bateria cheia e uma guitarra suja.

Em álbum estão lá os Massive Attack, os Portishead, mas em palco só há Tricky e o seu downtempo cheio de breakdowns e repetições que levam o público a participar em crescendos que são clickbaits de plateias, muito bem feitos. Há uma enorme festa que não quer parar, Tricky volta ao palco duas vezes em dois encores, termina com “Sun Down” já numa outra galáxia, toda a gente abandona o recinto a cantar «She thinks I’m too proud». E quando os franceses olham uns para os outros a sorrir numa cumplicidade que diz, compreendi o que aconteceu contigo aqui porque a mim aconteceu o mesmo, acreditem, foi muito bom. É com grande expectativa que o aguardo em Lisboa para um concerto no Lisboa ao Vivo no dia 27 de Fevereiro.

Vera Rodrigues

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