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Published on Janeiro 29th, 2018 | by festmag

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“Actores”: São, afinal, sete os magníficos

Quando pisam o palco despem a vida que é, afinal, a sua. Assumem outra pele, camuflam as dores, alegrias ou incertezas que a alma traz. A pele que lhes foi estranha entranha-se-lhes pelo corpo adentro. E, porque o ofício assim o impõe, há outra vida a acontecer através deles.

São gente com histórias dentro, aqueles que, em Actores, levaram ao palco do São Luiz Teatro Municipal um pouco de si. Escrever “pouco” é, claro, redutor, pois aquilo a que o público tem o privilégio de assistir é grandioso. As partilhas de Nuno Lopes, Miguel Guilherme, Bruno Nogueira, Rita Cabaço e Carolina Amaral/Luísa Cruz são de uma generosidade imensa e revelam um pouco do muito que eles são: há sonhos, pesadelos, desilusões ou tristeza. A conduzir os relatos está uma voz por vezes acutilante, mas noutros momentos serena ou, até, vazia de qualquer comoção. É o encenador, Marco Martins.

Os seis magníficos. Começam por se apresentar a uma audição. Numa folha branca está o nome que lhes foi dado e a idade que carregam. Posam de frente, de perfil, pronunciam-se sobre a sua disponibilidade. Despem-se de quem são – e, se necessário for, das roupas que trazem – para dar vida ao texto. Cumprem o estado de alma exigido pela voz que os decidirá aptos, ou não, para o papel pretendido porque, não sendo fácil encontrar trabalho enquanto actor, é isso mesmo que sonham/ambicionam: sê-lo. (É incrível o quão diferente um mesmo texto consegue ser quando, e em boa verdade, apenas difere o estado de alma.)

As histórias pessoais vão coexistindo com outras a que deram corpo e, sem que o espectador o espere, vê serem reconstruídos outros textos, outros tempos, espectáculos e salas, até.

Assim que Bruno emite um som ou faz um ligeiro movimento a sala reage. Não tardará a rir à gargalhada com ele, seja quando partilha a frustração de ter representando, em pleno El Corte Inglês, um pastor acompanhado por sua ovelha, seja quando quase beija Nuno. E este beijo parece causar em Nuno um ataque de riso. Quanto mais se tenta controlar – todo torto na cadeira – mais vermelho fica, acabando por contagiar quem, com ele, partilha o palco. Aquele riso logo se percebe essencial ao decorrer do espectáculo.

Outros momentos, aparentemente, espontâneos houve, como aquele em que Rita parece bloqueada por uma qualquer dor. O encenador pergunta-lhe se está bem para, depois, lhe exigir que continue. É assim, em teatro. Dores, físicas ou da alma, são absorvidas pela entrega. E Rita é de uma entrega incrível. Quando toda ela é loucura. Quando toda ela é movimento: no palco – e tendo decorrido já grande parte do espectáculo – a palavra “INTERVALO” mostra-se a vermelho, as luzes acendem, o público levanta-se, conversa, vê o telemóvel, há quem saia – e Rita continua a mover-se, como se se expurgasse de algo. É a única, ali. Não há cansaço ou barulho que a demovam. Há, sim, esta entrega absoluta.

Em palco está Miguel ou um gato? O rosto transforma-se, o olhar é expressivo. O Miguel que, a Leiria, quis levar um D. Quixote hilariante, teve de o executar mais contido. Aquele Miguel cuja mais recente “morte” aconteceu em novela. E depois Carolina que revive outro falecimento, depois de se ter juntado a esta equipa incrível apenas a três semanas da estreia. Carolina substituiu Luísa que, pelo cansaço dos trabalhos acumulados, pediu para sair. Mas Luísa está lá, afinal, através da jovem Carolina. E, com ela(s), acontecem duas partilhas marcantes: no dia em que a mãe foi a enterrar, Luísa subiu ao palco; o desejo profundo da actriz substituir Isabelle Huppert e, finalmente, cantar que, contudo, não aconteceu. Carolina “foi” Luísa, mas conseguiu existir por si. Afirmou-se como a actriz com história(s) dentro que, também, é.

Actores esteve no São Luiz Teatro Municipal. Segue, agora, para o Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, depois para o Teatro Nacional São João, no Porto, para o Cine-Teatro Louletano, em Loulé, ou para o Centro de Arte de Ovar. Há, ainda, muitas oportunidades para assistir a este espectáculo grandioso.

(Ah, os magníficos não são seis, mas sete. Aplausos, de pé.)

Texto: Carina Leal

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