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Published on Junho 17th, 2018 | by festmag

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Reportagem | NOS Primavera Sound, 3.º dia

Ao terceiro dia do NOS Primavera Sound, choveu conforme as Escrituras e alguns deuses tomaram conta do Porto. Nick Cave, Nils Frahm e Arca foram alguns dos senhores que fizeram desta uma das melhores noites da edição deste ano.

Ao terceiro dia, duas estreias no festival, pela primeira uma chuva insistente e persistente e a multi-instrumentista dos Camarões, Vagabon. Laetitia Tamko apresentou-se no palco Pitchfork em formato trio vigoroso, com o disco de estreia “Infinite Worlds”, editado no ano passado. Com uma voz poderosa e um rock alternativo encorpado provaram porque andaram nas bocas do mundo com este primeiro disco e reivindicaram a si uma atenção redobrada.

Apresentando “Take Me Apart”, a americana Kelela emocionou-se ao ver uma bela multidão no Palco Super Bock. Porquê? Porque apesar chuva foram muitos os que resistiram para a ver. “Não consigo cantar e chorar ao mesmo tempo”, disse ela ao público. Deduzimos então que tenha parado de chorar porque cantou que se fartou. Uma soul digital com laivos de funk, sonoridade quente e aconchegante que – juramos – conseguiu secar muitos dos pingos de chuva que entravam pelos impermeáveis adentro.

Sempre debaixo de chuva, o público mantinha a resiliência do “quem corre por gosto não cansa”. E assim avançámos para o palco Seat, onde os britânicos Public Service Broadcasting justificavam uma vez mais todos os elogios possíveis. Sempre com uma profundidade conceptual e uma atenção social meticulosa, despejaram sem mácula a miscelânea de sons – krautrock, indierock, electrónica ou dance-punk – que os caracteriza. Desde 2013, que editam um álbum de dois em dois anos, e desta o enfoque foi no último registo, “Every Valley”, descrito pelos próprios como a história do declínio industrial. Sempre com uma componente visual forte, com imagens da nossa história recente em pano fundo, debitam batidas irresistíveis ao movimento sempre com um rigor quase matemático.

Até que, finalmente, chegaria o momento mais aguardado da noite e que o acréscimo de público em relação às primeiras duas noite comprovava. Nick Cave dava entrada no palco principal do NOS Primavera Sound para êxtase dos milhares de encharcados que com ele esqueceram a chuva ou o frio ou desconforto. Quase hora e meia de comunhão lavou literalmente dores e dós, de um lado e do outro. “Skeleton Tree” é o último disco do australiano radicado há muito por terras de sua majestade, e serve de expiação à trágica morte do seu filho. A premissa por si só carrega aquela que é a dor maior da humanidade e a sua personagem em palco parece carregar a negridão mas também o romantismo de uns dos livros góticos de Mary Shelley.

Abriu com “Jesus Alone”, a que juntou outros temas deste último álbum mas passou também por êxitos como “Red Right Hand”, “Jubilee Street” ou “Stagger Lee”. Com “Into my Arms” conseguiu um dos momentos altos da noite com a plateia a cantar em uníssono “Into my arms, O Lord; Into my arms; And I believe in Love; And I know that you do too”. Ao vivo tudo é imponência e respeito. A chuva continuava mas já se confundia com lágrimas e choros, de felicidade ou tristeza ninguém sabe. Acabou em grande com “Push The Sky Away” e rodeado de cerca de 50 pessoas que convidou a subir ao palco. Tudo certo ou como diria Gonçalo M. Tavares “a intensidade só é obstáculo para quem quer adormecer”.

 

Para quem escolheu não ver o Sr. Cave havia uma bela estreia em Portugal para testemunhar. Os Wolf Parade, banda composta por alguma malta pertencente a bandas recomendáveis como os Handsome Furs e Sunset Rubdown, não sentiram a responsabilidade de atuarem perante um público que estava (e continuava) encharcado e, cientes de quem tocava no anfiteatro natural (até percebeu fazerem sinais como que a dizer “estás a ouvi-lo?”, deram um con-cer-ta-zo). O órgão de Spencer Krug é claramente uma das estrelas da companhia bem coadjuvado pelo endiabrado guitarrista Dan Boeckner, numa prestação muito enérgica em que demos por bem empregues todas as gotas que colecionámos.

A noite continuaria mas depois de Cave, para muitos, já não seria a mesma. Os The War On Drugs, herdeiros do legado de um Bruce Springsteen, mostravam “A Deeper Understanding”, quarto álbum da banda americana. Rodaram ainda por alguns dos maiores êxitos da sua discogrofia como “Red Eyes”, “Holding On” ou uma longa interpretação de “Under the Pressure”. Ficaram num meio-termo entre a melancolia e a festividade que conseguem ter, o que por vezes acusou alguma monotonia. Talvez noutro tempo e noutro espaço.

Para alguns festivaleiros a noite de emoções fortes não terminava ali pois no Palco Super Bock atuava um rapaz alemão, Nils Frahm de seu nome, dono de algum (muito) talento na arte de criar pedaços de música que nos transportam para o meio do cosmos, no meio de corpos celestes de encanto indizível. Beleza transcendental será uma boa maneira para tentar descrever a extrema delicadeza e perfeição daquele concerto. O foco deste momento de limpeza da alma esteve no último registo de estúdio, corretamente intitulado “All Melody” e deixou uma marca indelével. Uma marca invisível ao olhar mas muito presente no nosso âmago.

Como se fosse ainda possível, a chuva redobrava. E o público dividia-se entre procurar abrigo, desistir ou resistir com ajuda do post-rock dos escoceses Mogwai. Torrentes elétricas instrumentais acompanhavam as torrentes que caiam do céu. Ainda sim, sempre competentes e alinhados vasculharam a sua longa discografia e trouxeram alguns dos temas maiores como “Mogwai Fear Satan” ou “Hunted By a Freak”. Foi o concerto possível, dada a infelicidade atmosférica e a impossibilidade de compenetração numa música que a exige. E que nem os sons estridentes das guitarras de Stuart Braithwaite e companheiros permitiu.

Para encerrar em grande a sétima edição do NOS Primavera Sound, assistiu-se a algo inenarrável oferecido pelo venezuelano Arca. Alejandro Ghersi captou de imediato os resistentes com uma performance arrebatadora onde não houve lugar a etiquetas, ideias pré-concebidas ou sequer alinhamento, porque não foi um concerto ou um dj set, foi arte em estado puro.

Texto: Pedro Beja Alves e Pedro Guimarães

Fotografias: © Hugo Lima

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